sábado, 31 de maio de 2008

Parece

Parece que foi ontem
que comecei a te amar
no entanto,
já se passaram vários outonos
e primaveras e invernos e verões
Conheço os seus tiques, suas manias,
todos os defeitos da nossa relação
Como se fossem meus,
tiques, manias e defeitos,
e que na verdade o são.

Parece que foi ontem,
mas não.
Daqui a pouco vem outro sábado,
outro domingo, outra estação.
O tempo passa, as coisas mudam,
e você continua aqui,
neste meu coração.
Aqui.
Mudo, quietinho,
ajudando nas rimas fáceis
e afastando a solidão…



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Esse texto tava aqui no computador há meses, esperando pra ver se eu o melhorava e postava. Já tinha me esquecido, econtrei-o por acaso, tanto acaso quanto um caderninho verde fluorescente pode sinalizar, e lembrei que devia até estar digitado, aguardando pacientemente por melhorias. E estava mesmo, o coitado. Só que não consegui pensar nas melhorias. Acho que falta uma rima lá no início e algo menos piegas do que "parece que foi ontem". Especialmente, ele merecia um título diferente. Essa coisa de o título ser igual ao primeiro verso é muito padrão-automático-do-word. Mas minhas mãos estão geladas e os dedinhos finos da criatividade parecem terem congelado junto. Se alguém pensar em algo melhor, agradeço. Agora chega, acho que estou tendo outra idéia. Bjins

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Blefe

Eu tento disfarçar
pra expurgar minha culpa,
mas a verdade,
verdade verdadeira,
é a seguinte:

Eu sou uma chata.

Uma chata cheia de manias
Irritante
Adoro desculpas do existir,
coleciono palavras,
mimetizo escritos,
sinto em melodias,
e gosto de lilás.

Aliás, é a minha cor

Todo mundo tem uma cor
(ou pelo menos deveria),
aquela da qual sentimos ciúmes
e que só se empresta a quem se ama

A minha é essa, lilás

É...
Sou mesmo uma chata,
não nego.

Mas
se você quiser
eu lhe empresto agora
todo o meu lilás,
sem nem pestanejar.
todinho.

Aceita?


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Esse texto foi livremente inspirado em versos de uma poesia da Fernanda Youg, que estou com preguiça de transcrever (e não tem nome e nem número de página pra que eu possa citar). Daí, catei no google e o encontrei postado em um blog, o link é esse, pra quem quiser ver: Fernanda Young nas Teclas de um Computador. O blog, não sei de quem é, mas pareceu bom, apesar de largado desde 2009...
Dentro em breve vou publicar outro post cheio de versos da Young. É que acabei de ler o livro de poemas dela e estou impregnada pelas idéias (nesses casos o contágio é uma coisa boa). Pena que não posso me entregar ao teclado agora. Não agora. Mas daqui a pouco as palavras não me escapam, nem que elas tentem! Vou caçá-las, com unhas e dentes, sem possibilidade de escapatória! Mas daqui a pouco.... agora tenho que ir.
Beijos a tod@s que ainda têm coragem de passar por aqui!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Manuscrito

Quando a saudade aperta
(sem dó ou piedade
como um temporal inescrupuloso
que cai inundando a cidade)
arrumo abrigo em tuas palavras
antigas
amigas
amantes

em teus escritos encontro proteção
e já não há vento,
relâmpago ou trovão
no teu ritmo, em tua melodia,
decifro teu universo particular
e apago qualquer gota de solidão

sei de cor cada verso
teu coração
decorado com tua caligrafia

No livro de achados e perdidos da vida
lá estás
letra a letra
comigo em toda rima
ao meu lado em cada linha
na de partida
na de chegada
e ao longo do caminho

e o que faço com tanta nostalgia?
Cada lágrima agridoce
verte uma poesia
sem atenção à rima
à métrica e à razão

O que inspiro
não é ar
O que me inspira
é sua alma

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Cuidados

Não me venha com promessas vãs
não invente que sem mim não vive
que meu sorriso ilumina o mundo
que eu sou seu talismã...

Não me apareça com rimas prontas
clichês de comédia romântica
histórias de almas gêmeas
e todo esse amor de faz-de-conta...

Não diga que me ama...
em menos de uma semana,
não há jeito de eu acreditar!
Não diga coisa que você não sente
Não tente se adequar aos meus sonhos
não exagere no desejo de agradar!
Nunca diga nada sem significado
me assusta quem mal sabe que mente...
Por isso, falar muito não adianta
palavras só tocam a superfície
atos é que são provas
o melhor jeito de amar...

Se você vier muito afobado
achando que é meu dono
e ficando logo grudado
eu fujo!
Rapidinho me afasto!

Tanta urgência desmedida
só pode ser carência
loucura, obsessão...

Amor de verdade vem aos poucos
precisa ser conquistado
cultivado,
aprimorado...

Posso parecer fria
insensível, cínica e desinteressada...
Mas não se iluda:
eu sou é cuidadosa, precavida
e, acima de tudo,

Frágil.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Já era, já foi!

Quando você me cativou
Pôs as estrelas aos meus pés
Pintou nos meus dias as suas cores
Prometendo-me um futuro encantado

Mas você partiu e me quebrou
Fez da minha sorte revés
Transformou a vida em dores,
Em um inverno muito demorado...

Até que um belo dia você voltou
dizendo trazer de saturno os anéis,
querendo enfeitar o mundo com flores...
Como se nada houvesse mudado!

Mas agora eu sou outra, não notou?
Achei que era pra sempre, mas, ao invés,
Vi que o tempo cura tudo, até amores!
E fortalece um coração abandonado...

domingo, 13 de janeiro de 2008

Amantes futuros

Minha alma rima com a sua
mesmo nos versos mais incomuns...
como em canções de band-aids no calcanhar,
de rapazes latino-americanos sem dinheiro no bolso,
ou de escafandristas que virão explorar...

Nossas vidas é que destoam,
em tempo, espaço e harmonia
como o vozerão do locutor da rádio,
incompatível com sua figura franzina.

Mas não se afobe não, que nada é pra já...
é só um problema de ritmo,
nada impossível de se consertar!
(mesmo porque, toda dificuldade é relativa:
é bem mais fácil, por exemplo,
do que fazer a paz no Oriente reinar)

Em outra analogia musical,
nós dois somos como o jazz:
cheios de improvisos...
ou, numa mais visual,
um quadro alegre do Romero Brito.

O fato é que,
ainda que desencontrados,
somos arte
em todos os sentidos.


..................................................

É válido escrever as impressões sobre meus próprios escritos? Pensei um pouco nisso (menos de meio minuto, imagino) e conclui que sim, pelo menos pra referências futuras. Mesmo pq, aquele bonito plano de só escrever sem esses comentários pessoais já foi pro espaço mesmo! Então, achei esse textinho muito simpático, mas acho que falta alguma coisa. Ou talvez sobre, não sei. Pode ser que funcionasse melhor com rimas de verdade ou com alguma mensagem melhor elaborada... enfim, escrevi agorinha, sem preparativos ou pós-produção, surgido do nada, de repente mesmo, nem sei sob qual inspiração. Tendo em vista tais condições, eu até gostei. Se alguém tiver sugestões, eu aceito. Todo texto meu é uma obra aberta. Quer dizer, quase todo. De alguns eu quase tenho ciúmes, mas são raras exceções.
Então tchau.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

o peso, a leveza e o amor nisso tudo...

Leve o suficiente
para não ser um fardo;
Pesado o bastante
para não se esvair no ar

....................................................................

Os calendários marcam um novo ano, mas as mudanças param por aí. Dessa vez não perdi meu tempo fazendo resoluções de ano novo, das quais certamente iria me esquecer em poucas semanas... é preferível perder tempo com coisas pouco menos improdutivas. Já as coisas produtivas andam fora de meu alcance: o tal hiato criativo continua tomando conta de mim. Com tamanha falta de inspiração, não tenho escrito nem comentários nos blogs preferidos. Mas hoje resolvi me esforçar a escrever algo e, como o resultado até agora não está muito bom, vou parar logo e visitar os blogs alheios - que certamente hão de me inspirar a comentar e, quem sabe em pouco tempo, também a produzir novos escritos próprios e publicáveis.

Ah, "O peso, a leveza e o amor nisso tudo" foi apenas uma anotação feita em um caderninho na época em que li "A Insustentável Leveza do Ser", do Milan Kundera.

Até!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Blues

Tem uma mão espremendo o meu coração, fazendo lágrimas aparecerem nos olhos e um nó na garganta. É uma vontade de chorar sem motivo que me faz sentir saudades, e não o contrário, como é de costume. Bem, pelo menos eu acho que o normal é você sentir saudades e por isso ter vontade de chorar. Mas comigo não: primeiro veio a vontade de chorar, depois chegaram as saudades. Abro uma garrafa de vinho tinto suave e me sirvo de uma taça. Ligo o som, escolho um cd de blues, ponho pra tocar não muito alto. Apago as luzes e acendo umas velas. É madrugada, a cidade inteira dorme. Tudo o que vem lá de fora é silêncio e escuridão, combina bem com o meu estado de espírito. Sento-me em uma cadeira reclinada, absorvendo a música e sorvendo o vinho. Deixo-me levar pela melodia e pela melancolia, sentindo o coração cada vez mais espremido, nodando a garganta e alagando os olhos. Minha cabeça flutua. A tristeza pura é leve, vazia. Não é um bom momento para racionalizar, mas mesmo assim tento identificar minhas emoções. Há saudade, um toque de amargura, um bocado de frustração e a tristeza sem motivo. Começou com um sonho do qual não me lembro: o sonho se foi, mas a sensação ficou. Sensação de impotência, de falta, de blues. A tal da saudade. A solidão da madrugada enaltecida pelo vinho, brilhando pela escuridão. Desisto de resistir e fecho os olhos. Deixo a canção penetrar pelos poros e as lágrimas saírem sem controle. Choro como uma criança assustada, sozinha e indefesa. O tempo passa sem que eu perceba, abro os olhos. Uma das velas se apagou. Levanto da cadeira, paro a música, apago as outras velas. A vontade de chorar passou, mas a tristeza indefinida continua aqui. Deito-me na cama, abraçando um travesseiro, abraçada pela saudade. Fecho os olhos, os blues ainda tocam dentro de mim. Deixo os pensamentos flutuarem até o mundo dos sonhos. Talvez tudo mude com a manhã.
Só me resta a esperança.

domingo, 18 de novembro de 2007

Solidão

Passo dias olhando pro teto
de estrelas de plástico
que eu mesma pendurei.
Lá fora, passam as nuvens,
passa o sol,
passa a chuva,
passa a lua,
até as estrelas de verdade...
Lá fora tem gente gritando,
carros correndo
e buzinas tocando.

Aqui dentro, toca Jazz e Blues.
Um saxofone chora,
um piano vibra,
corações dançam
e espíritos flutuam...
Eu apenas ouço
e deixo o espírito se levar
em um mar de emoções alheias,
que encharcam as minhas próprias,
sem conseguir me lavar.

Leio palavras que nunca foram minhas,
nem para mim foram escritas,
mas não importa,
eu as tomo,
passam a ser minhas
assim que tocam os olhos
e se inscrevem na alma.

Palavras
que não formam o mundo
nem sobreviveriam à realidade,
mas estão salvas aqui,
dentro dos livros,
dentro de mim.

Coleciono imagens que nunca vi
numa galeria imaginária,
com outras que até vivi,
ou quase,
repintadas com as cores da memória.
Lembro de gente que inventei,
reinvento gente que conheci,
conheço gente de que nem me lembro...

Tudo acontece sob esse teto que me olha
com suas estrelas fluorescentes,
essa música que me ouve
sem piano e saxofone,
essas palavras que me lêem
sem mentiras e sem verdades,
e essas imagens que me pintam
com cores que nem existem...


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Não abandonei o blog, mas acho que estou em um hiato criativo. O que é quase estranho, considerando a introspecção que me tomou nessas últimas semanas... Estou atolada em coisas pra fazer (como sempre, aliás) e só passei aqui para mostrar que ainda vivo. O texto talvez não faça muito sentido, escrevi agora em, sei lá, cinco ou dez minutos (o tempo passa em um ritmo estranho no meu mundo). Não pensei muito sobre ele, não escolhi muito as palavras. Está tão desleixado e avoado quanto eu tenho estado. Talvez outro dia eu tente melhorá-lo. Eu tinha feito um acordo comigo mesma de não dar explicações e nem escrever a esmo quando comecei o blog neste endereço, mas não dá pra evitar. Tudo o que tenho escrito recentemente são conversas informais com o papel e, tendo em vista o "hiato criativo", o acordo meio que foi para o espaço. Mas por enquanto chega.
Tchau.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Ressaca

     E lá estava ela, caminhando trôpega de volta para casa. Podia ser culpa do sapato alto na rua sem asfalto, ou até mesmo da fome que começava a devorar as paredes do estômago, mas o fato é que ela andava bêbada sem ter ingerido uma gota de álcool sequer. No caminho, pensamentos desvairados, desconexos, diálogos imaginários descuidados, preocupações do dia que se passou e dos que ainda estavam por vir. Nunca mais passaria um dia inteiro em jejum, ela jurava para si mesma, como já havia feito centenas de outras vezes, sem nunca cumprir. Ele iria passar em sua casa esta noite, para enfim colocar os pingos nos is, ele prometeu. Verdade que não era a primeira vez que prometia isso. Assim como ela, ele também tinha uma sacola cheia de promessas não cumpridas. Mas desta vez ela acreditava que seria diferente. Antes de sair do trabalho, ela passou no supermercado e fez compras para um jantar a dois, onde, enfim, os is ganhariam pingos. Talvez viesse daí a sensação de ressaca. Sua rua parecia mais longa do que nunca, e seus passos, mais tortos. Sua vida inteira parecia torta, bêbada. A vida bêbada de uma pessoa sóbria. Talvez um pouco de álcool curasse tudo. Não dizem que o melhor remédio para ressaca é mais um gole? Ou um copo inteiro? Além do que, o álcool desinfeta, e ela precisava disso: desinfetante para a alma. Uma vida na ressaca por não ser vivida, culpa dos malditos is sem pingos.

     Um cigarro. Talvez um cigarro ajudasse. Dizem que cigarro combate a ansiedade. Um barzinho, “um maço de cigarros, por favor” “Qual?” Qual? Já decidira comprar cigarros, agora ainda tinha que escolher um? Pediu um Marlboro, automaticamente. Era o cigarro que ele fumava e ele raramente ficava ansioso. Devia funcionar. Seguiu seu caminho torto, com passos tortos, até enfim chegar em casa. Abriu a porta, entrou, acendeu as luzes. Olhou para a sala vazia com estranhamento. Não parecia a mesma sala que deixara de manhã. Foi até a cozinha largar as compras. Cozinha vazia, limpa e arrumada. Seguiu para o quarto, onde deixou a bolsa. As coisas nunca ficavam tão arrumadas com ele em casa. E ela gostava da casa arrumada. Mas temia a casa vazia. O silêncio a aterrorizava, ligou o rádio. Sentiu novamente a tal da ressaca, lembrou-se dos cigarros. Foi até a cozinha em busca de fósforos. Pegou a caixinha cheia dentro do armário, tirou um palito e o riscou. Lembrou-se de como ele riscava o fósforo ao contrário, e de quantos isqueiros ela deu a ele, que perdeu. Nossa, foram tantos… “Ai!” Voltou do passado com a chama quente perto do dedo. Apagou o fósforo num reflexo. Pegou o maço de cigarros, abriu e puxou um, esforçando-se para não reacender mais lembranças. Acendeu o cigarro, catou um cinzeiro – lembrança dele – e sentou-se. A última vez que fumara na vida foi no início da faculdade. Nossa, há quanto tempo… Tragou o cigarro, sentiu a fumaça entrando em seus pulmões e lembrou-se das amigas do colégio e de seu primeiro cigarro. Soltou a fumaça e ficou quase orgulhosa ao constatar que depois de vários anos sem fumar, não engasgara. Sentiu um alívio imediato. Tanto tempo sem um cigarro e esta continuava sendo uma prática válvula de escape. Continuou sentada, divagando, enquanto a brasa consumia o cigarro e as lembranças consumiam sua alma.

     Pouco antes de chegar no filtro, apagou o cigarro. A fome voltou a devorar as paredes do estômago. Sentiu dor de cabeça e tontura, achou melhor fazer a janta, ele chegaria a qualquer momento. Preparou a comida com cuidado e dedicação. Sabia que o tempero estava perfeito, do jeitinho que ele gostava. O tempo passava e nada da campainha tocar. A fome gritava. Decidiu comer logo, esquentaria tudo quando ele chegasse, e até comeria um pouquinho novamente, só para acompanhá-lo. A dor de cabeça passou, mas o sentimento de ressaca continuava. Já estava ficando tarde, onde ele estava? Os is precisavam dos pingos, estavam irriquietos como crianças sem pais. Sentou-se para esperar. “Será que aconteceu alguma coisa? Por que ele não telefona? Também não vou ligar, é melhor”. O tempo passava, implacável. Ela, escorregando pelo sofá, tentando manter-se atenta, perdeu a briga para o cansaço e caiu no sono.

     Acordou com o sol invadindo a sala e acariciando seu rosto. Já era quase hora de ir para o trabalho. Mais uma espera em vão. Mais uma promessa violada, de um amor que tanto prometeu e nunca cumpriu. Levantou-se e foi para o banho, arrumar-se para mais um dia de ressaca.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

sonhos

Sonhei que dormia,
o dia se esvaia em uma tarde cinza de céu nublado.
Revoltas, as águas do mar batiam na areia me pedindo pra acordar.
Mas não atendi,
continuei a dormir, sonhando.

Sonhei que sonhava,
o dia amanhecendo em uma bela manhã de céu ensolarado.
Nas águas calmas do mar, eu velejava
rumo ao desconhecido distante, uma nova aventura...
até que então, acordava.

Sonhei que acordava,
uma noite morna e estrelada, o amor ao meu lado,
sem mar, sem areia, sem barco,
mas quem precisa dessas coisas?

Acordei.
só
o quarto escuro e frio,
o mortal silêncio da madrugada.
Pela janela, contemplando a lua cheia e prateada,
já não me sabia mais
se dormindo
ou sonhando
ou acordada…
Querendo viver meus sonhos e realidades,
mesmo que paralelas,
mas infinitas em possibilidades…

(06/07/2002)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Distante

A distância diz tanto!
tudo é dito e desdito,
então edito, dia-a-dia,
um breve acalanto

nessa melodia melancólica
de sincero desencanto,
prezo o instante – preso, insistente –
em que ansiosamente, mas sem espanto,
assisto às suas asas (assaz em vão)
alçando longos vôos de déu em déu...
enquanto me espalho em pranto,
devaneios e desatinos e desisto:
já nem te quero tanto!

sábado, 13 de outubro de 2007

Ah!

Ah, a vida!

Este joguinho de gato-e-rato
que dá tanto gosto
quanto desgosto de se brincar,
que nos deixa felizes, arrasados,
lavados, amarrotados,
e até passados,
tudo de uma vez...

que nos traz lágrimas atrás de sorrisos,
atrás de esperanças, atrás de desesperos,
atrás de recomeços, atrás de inconclusões...

uma seqüência aleatória
de escolhas erradas,
mal-entendidos,
desentendidos
e parcos entendimentos.

Vidinha de medos,
inseguranças,
incertezas,
absolutas ou parciais,
raramente imparciais.

ela, que é madrinha sem ser fada,
que amarga ao adoçar,
às vezes erra na mão
e azeda,
mas recicla.

Ah, a vida...
seja em verso ou prosa,
romance, drama ou terror,
forró, MPB, rock ou funk...
seja tudo e ao mesmo tempo,
ou nada e nunca...

Quem me dera viver um sonho a cada dez vidas que sonho!

domingo, 7 de outubro de 2007

Purgatório

A madrugada estava triste como sua alma. A vida lhe parecia um erro. Tanto já havia chorado, gritado e se desesperado que mal lhe restavam forças para respirar. Tudo que havia feito, deixado de fazer, dito e ouvido fazia a cabeça girar. A última discussão ecoava ininterruptamente em seus pensamentos. Cada insulto e agressão parecia cortar a pele, um súbito sentimento de culpa sufocando o coração. Tirou toda a roupa, despindo-se de seus problemas, um a um, peça por peça. Ligou o chuveiro e deixou a água gelada cair sobre a cabeça. Sentiu o choque térmico e tremeu, mas não recuou. Esvaziou a mente. Parou de pensar para simplesmente sentir cada gota que molhava seu corpo. Ensaboou-se delicada e milimetricamente, como se aquele fosse o último e o primeiro momento de sua vida. Viu descer pelo ralo toda a sujeira, dor, culpa e tristeza que antes carregava. Assim foi seu purgatório. Saiu do banho purificada e, vendo os primeiros raios de sol iluminarem e aquecerem a cidade, teve a certeza absoluta de que tudo ficaria bem. Tinha que ficar.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Des-

percorro descaminhos,
desconstruo idéias,
conforto-me no desconsolo.

desfaleço procurando,
desencontro-me.
uma vida desfeita em certezas.

descabelada,
desavisada,
desmotivada.

desfocadas, minhas lentes
mostram apenas o deserto.

destôo da palheta de cores,
não faço por desmerecer.
sou um amontoado de ilusões
desmontadas

desperto meu cinismo,
despeço-me do romantismo...
(despreocupe-se, después ele volta.
não há desalmado capaz
de desterra-lo para sempre!)

destemida, caço tigres,
desarmo bombas,
desvendo mistérios
e vendo tudo por aí,
despercebida...

aí eu me desminto:
minha vida é metafórica.
e desaforada.

sábado, 29 de setembro de 2007

Breves Conceitos

Saudade é quando
a gente sente tanto
a presença da ausência
que chega a ficar
com gosto de sal
na boca.

...:...

Paciência
é a ciência
de andar
com passos
de bebê

...:...

Esperança
é quando
a espera dança
ao som de Elis,
de longo azul celeste,
feito criança

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Implicância

Pego linha e agulha
pra me costurar em você...

Você já chega com a tesoura!

Perco então o fio da meada
e me enrolo.
Peço ajuda à desatadora de nós,
nossa senhora,
que me ensine a desatar-nos!

Começo a tecer uma colcha
de momentos.
Espalho as lembranças,
entrelaço-as cuidadosamente...
Depois de muito trabalho,
estendo a colcha no chão
pra você passar.

Mas você voa e nem vê!

Desisto,
não quero mais saber!
Dobro nosso memorial
com desvelo revoltado
e o acomodo em um baú,
que tranco a cadeado.
A chave, jogo fora...

E você a pega no ar!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Assim

Se eu não sou exatamente
o que você queria,
paciência!

Você também não é
quem eu imaginava
e o quero, mesmo assim,
assim mesmo.

“se você for
exatamente como imagino
igualzinho aos meus sonhos
eu vou embora
detesto desmancha-prazeres
”
(Martha Medeiros)

sábado, 15 de setembro de 2007

flor da pele

Pouso a mão sobre seu rosto,
quase sem tocá-lo.
Os dedos tremem, aflitos,
mapeando cada detalhe,
estampando em mim
a textura da sua pele

Meus sentidos se afloram
sentindo os seus,
Vagando nos versos derramados
pelo compasso da sua respiração

Enquanto dorme indefeso,
despetalo-me em alegrias,
maravilhada.
Como um bebê que ainda
não aprendeu a sentir medo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Tautologia

Meu corpo inteiro
sorri
ao vê-lo

Palavras se abraçam
ao pensar
em você

Sou repetitiva,
quase obcecada
Da boca pra dentro,
só falo em você

Faço versos sem rimas
que nunca tocarão
seus olhos

Tudo o que calo é da boca pra fora.

sábado, 8 de setembro de 2007

Endless

Faço muitos planos
que descem pelo ralo
e se perdem no esgoto

Então improviso

Tenho uns surtos
de inspiração,
outros,
psicóticos

com dedos sapateando o teclado,
escrevo coisas sem nexo
tento (em vão) fazer poesia do cotidiano
e viver as palavras que brotam de mim

...

e agora, o que dizer?
como termino?
Sei lá!
Eu mesma sou sem fim...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Tarja Preta

Às vezes eu tenho certeza de que, se eu conseguisse acabar com meus amigos imaginários, ia descobrir que um dos dois não existe: o mundo ou eu.

domingo, 26 de agosto de 2007

Madrugada

Ausência
de corpo presente
e copo vazio
Vazando

Deixo-me ir

Calo o silêncio
com sons
que consolam
o amanhecer

sábado, 18 de agosto de 2007

Abrigo

Uma dança,
um descuido,
mero acaso.
CD do Chico,
passos suaves,
um abraço.

Momentos assim são leves,
como penas
suspensas no ar
por um sopro,
um suspiro breve...

De repente
um beijo calado,
colado,
que se repete
entre vãos,
cheio de mãos...

Como a brisa
varre as folhas secas
no outono,
eu te sigo,
passo a passo,
passando a limpo
um desejo desvairado

No fim, peço apenas
que leve consigo
meu riso rasgado;
que eu trago comigo
seus olhos
em meus sonhos
mais ousados.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

sábado, 11 de agosto de 2007

Partitura

Eu dei a partida
Ou será que foi você?
Não importa,
eu invento,
fui eu.

Caixinha por caixinha,
construí um monumento,
uma ode à surpresa,
ao acaso e ao momento.

Tive que ir,
sem querer,
insegura,
segurando sonhos
e juras.

Quando voltei
você me partiu.
Num verso, fiquei.
Revoltada,
parti.

Mas aí...

O vento sopra uma palavra
danadinha e safada,
que chega cabriolante,
repousa sobre meus ombros,
toma fôlego... e salta!
Uma vez,
duas, três,
até alcançar os ouvidos:
es pe ran ça.

(Esperança é quando
a espera dança
ao som de Elis,
de longo azul celeste,
feito criança)

Com copo de whisky na mão
e um band-aid no calcanhar,
alego insanidade
(em tão tenra idade!)
e revolto ao encanto,
frente e verso,
no meu canto de reverso.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

amarelo-memória

As malas, você levou...
Mas as lembranças ficaram,
no exato lugar onde você
esparramou.

Não passou de um mal-entendido,
hoje sei
Tudo foi uma invenção minha,
desta memória sublime,
deste jogo de me encontrar.

Sabe,
tem gente que vai ao analista,
psicólogo, psiquiatra ou
ao programa da Márcia

Não eu

Eu escrevo

mentiras, ficção
às vezes, até verdades,
por que não?
É sempre sobre mim

Estou convencida:
(muito convencida)
se o mundo não gira ao meu redor,
é porque errou a rota.

Então, não se iluda, tolinho.
Quando escrevo sobre você,
é de mim que estou falando.
E se você não está nem aí,
nem aqui,
nem preciso dizer quem se enganou.

Não adianta voltar,
refazer as malas e implorar...
Aquelas lembranças que você trocou
por um sofá,
não passam de fotos amareladas,
linhas maltraçadas,
e palavras até bem intencionadas...
mas cinzas
de uma chama
que não chama mais ninguém...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Renúncia

você ainda dorme
.................tranquilo
sob meu olhar de chuva
..............................atento
tatuo na veia seus detalhes
(não posso perder para
armadilhas da memória)
para depois recompor
traço a linha
sua poesia

vou-me
(de vez)
((desta vez))
(((de uma vez)))

mas antes
beijo de leve sua boca
(que levo)
sussurro uma jura
em seu sonho

Deixo uma lágrima na saída
......
Adeus

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Mentiras sinceras me interessam...

Não quero saber onde foi que errei,
nem como,
nem por que
Não quero críticas severas
sinceras
construtivas?!
Esqueça!
Eu quero é ser mimada!