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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Goiabeira


Da janela da sala vejo uma goiabeira. Não entendo nada de árvores e seu relacionamento com as estações, mas mesmo à distância do meu astigmatismo, aquelas parecem jovens goiabas. É uma árvore alta, de tronco meio camuflado, cheia de folhas verdes – as mesmas folhas que na época marrom do ano se amontoam em minha varanda. Há quanto tempo será que esta árvore está ali? Qual será sua história? A goiabeira é vizinha do que deve ser um pé de abacate. E de outra árvore que me parece uma mangueira. Mais além há um coqueiro e muitas outras árvores que não imagino quais sejam seus frutos, mas que, pela altura dos galhos, sei que já presenciaram muitos anos de acontecimentos desta cidade. Provavelmente todas elas já estavam aqui quando este prédio foi construído. Devem ter alimentado os operários enquanto misturavam o cimento e empilhavam os tijolos. Mais tarde, serviram seus frutos aos primeiros moradores, possivelmente na época em que ainda havia bondes em Niterói e a ponte não era nem um sonho. E continuaram ali por todos os anos, despedindo-se das pessoas que iam embora saudosas e recebendo as que chegavam cheias de esperança. Quando eu me mudei pra cá, há quase dois anos, também era época de goiabas. Lembro de pensar em amarrar uma latinha na ponta de um cabo de vassoura para colher as frutas, coisa que até hoje não fiz. De repente corre um vento e… plaft! Uma goiaba cai sobre o teto da casa vizinha. Plaft!, outra. Quanto o mundo já mudou desde que essas árvores foram plantadas? Sei que, desde que eu me mudei pra cá, muito já mudou. No mundo e em mim. E nenhuma dessas árvores precisou fazer nada para que isso acontecesse… O tempo vai passando, invisível, como o vento, mudando tudo ao redor tão sutilmente, que é preciso que se passem anos até que percebamos. Tudo muda. Eu, por exemplo, estou me mudando, mês que vem. Vou abandonar esta goiabeira sem nunca ter provado um de seus frutos, deixando-a como testemunha dos frutos metafóricos que eu plantei por aqui. Não sei se eu fiz alguma diferença na vida desta árvore, mas sei que ela, mesmo imóvel, calada e além da grade, fez alguma diferença na minha.
E ainda há quem se recuse a ser revolucionário dizendo que nada adianta, que o mundo nunca vai mudar… Enxergar é preciso!

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(Esse é antigo, mais exatamente de 22/03/2006, quando eu estava terminando a 1ª faculdade, saindo de Niterói e voltando pro Rio. Mas acho que nunca tinha publicado. Então, voilà - Só enquanto não ajeito o antigo que pretendo republicar e que ainda não tem fim)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Onde houver angústia... as asas



Ti,

Eu não gosto de chorar.
Nunca gostei, desde pequena, criança mesmo, já não era de fazer espetáculos de mim mesma. Muito menos espetáculos assim, deprimentes. Não sei bem porque, não que eu ache que chorar é uma fraqueza, acho que é porque eu não sei lidar com gente chorando, mesmo que seja eu. Minhas habilidades sócio-pessoais não são das melhores, nunca foram.

Eu não gosto de chorar, especialmente em público.
Mas às vezes não dá pra evitar. Outro dia fui ao banco, tentar pagar o carro, atrasado, mas não deixaram, porque o carro tá no meu nome e o cheque era do meu pai. Mas, oras, o carro é pago desde 2008, nunca com cheque meu, várias vezes atrasado. E em novembro eu paguei atrasado, no mesmo banco, mas em outra agência, com cheque do meu pai, e ninguém reclamou!… Enquanto eu tentava, em vão, explicar tudo isso pra gerente do banco, foi surgindo um nó na garganta e lágrimas começaram a empoçar os olhos. Subconsciente safado, porque, inclusive, a última coisa que minha mãe fez, fora de casa, antes de ter um treco e ser internada, foi ir exatamente aquele banco, àquela agência, pagar aquele carro, atrasado, com um cheque que não era meu. Na verdade, nem sei como ela pagou, só sei como não pagou: não com o meu cheque, porque depois disso, nos dias que sobraram, este assunto não era importante. Simplesmente não era importante. Mas a gerente do banco não tinha toda essa perspectiva. Pra ela, eu era uma maluca, chorando e tentando, com a voz embargada, explicar alguma coisa sobre como eles deveriam me deixar pagar uma conta, especialmente porque eles deviam estar mais interessados em receber do que eu em pagar. No fim das contas, eu desisti e saí do banco, porque chorar num banco é esquisito demais até pra mim, mesmo sabendo que tinha uma razão por trás daquilo.

Minha mãe morreu em um dia cinza.
Não é a memória afetiva falando, era um dia cinza mesmo, nublado, mas em que não choveu. Pelo menos não meteorologicamente falando. Eu ainda não tinha escrito sobre esse dia, o que quer dizer que não tinha parado pra pensar muito, talvez por evitação mesmo (que é uma palavra feia, mas existe de verdade)... E também quer dizer que, quando escrevi a primeira frase desse parágrafo, as lágrimas voltaram, intrometidas, sem convite. Agora, tentando lembrar, a memória é embaçada, e isso não é culpa das lágrimas, não das de agora.
O dia passou como um borrão, a notícia chegou umas 6h da manhã, me acordando, de um sono meio induzido por um tranquilizantezinho. Santo tranquilizantezinho, aliás. Eu posso ter parecido maluca, mas era uma maluca funcional. O que também pode não ser mérito do calmante, mas do estado de choque. Eu fui ao banco, à farmácia, ao hospital, dirigindo, ao posto de gasolina, fiz comida, fiz café, tive uma crise de choro na hora de escolher uma roupa pra ela, reclamei dos mosquitos, da lerdeza do carro fúnebre, ri no meio do enterro do caixão que quase caiu, chorei inconsolável em meio a vários abraços, feliz por ter amigos, não consegui evitar piadas fora de hora, vi um filme, aliás, muito engraçado, quase não dormi. Eu sei que essas coisas aconteceram, não nessa ordem, mas do que melhor me lembro é de que era um dia cinza. Cinza de nublado, cinza de tristeza e de pesar, cinza de preocupação, cinza do vazio que ficou.

Eu nunca tinha ido a um enterro antes, sou mesmo socialmente inábil, e certamente nunca poderia imaginar que o da minha mãe seria o primeiro. Minha mãe era provavelmente a pessoa que mais me amava no mundo. Certamente, dentre as pessoas que ela amava, era eu a mais amada. Vai ver foi por isso que não queria ter irmãos, porque sou ciumenta e gosto de ser a mais amada. Eu sempre soube disso, que era a mais amada, mesmo quando ela parecia não amar tanto assim, quando me irritava, sim, ela era bem irritante e não virou santa porque morreu. Minha mãe era implicante, intrometida, fofoqueira, barulhenta, superprotetora, chata e irônica. Mas era também a mais engraçada, sem-noção, maluca e simpática. Pelo menos 90% de quem a conhecia, gostava. Ela era meu azeite social, porque conhecia todo mundo, sabia de tudo. Ela quase sempre aparentava bom humor e enchia qualquer lugar com sua risada exagerada. Ela adorava me fazer passar vergonha, sempre ria e me chamava de boba e de antipática. E a gente discutia todo dia, por qualquer bobagem, mas nunca brigava de verdade-verdadeira, à vera. Ela era grande parte da minha vida, a maior, porque tomava conta de tudo, queria saber de tudo, e eu me senti tão sozinha, tão fragmentada quando ela morreu… como uma criança abandonada no mundo pela mãe.
Mas eu já sou burra-velha, eu sei.

Hoje eu fui ao segundo enterro da minha vida, em menos de três meses. A avó da minha melhor-amiga-desde-que-nasci morreu. Era um pouco minha vó também, e foi enterrada no mesmo cemitério que minha mãe. Mas eu não levei flores nem nada, mamãe não era muito chegada a flores, dizia que tinham *cheiro de defunto*. E eu nem sei qual é o jazigo ao certo, sequer faço questão de saber, porque não é ali que ela está. Onde quer que seja, não é ali. Passei o resto do dia meio chorosa, nem fui trabalhar, mas também não fui dormir, vim escrever.

Isso tudo é pra dizer que, quando eu mais me senti sozinha, muito mesmo, de verdade, você sem nem saber, me abraçou e disse “Estamos juntos”.
E quando eu fui fragmentos, você me levou pra casa e me colou.
E, não bastasse o tanto que eu já te amava antes, agora amo ainda mais, porque você é meu melhor-amigo-desde-antes-até-o-infinito-e-além, que me traz sorrisos involuntários, que me inspira e me faz escrever, que me faz acreditar em mágica e esquecer que eu não posso voar.
E porque eu gosto mais de mim com você por perto, já que, na verdade, eu gosto mais é de você.
E porque você é a coisa mais importante que aconteceu comigo hoje e em cada dia dos últimos mais de dez anos, mesmo quando me irrita, pessoa mais implicante que você é.
E também é pra agradecer por ter você na minha vida, porque eu não sei agradecer direito, então, além de prece pra Deus, Buda, Zeus, Alá, Krishna, Jeová, Super-Homem e quem mais quiser me escutar, vim agradecer a você, que entrou na minha vida…
 e resolveu ficar.

Eu não gosto de chorar.
Nunca gostei . Às vezes eu pareço fria, insensível, como se não ligasse pra nada, indiferente. Mas não é isso. É que não sou dada a demonstrações explícitas de sentimentos.
Desde pequena, criança mesmo, já não era de fazer espetáculos de mim mesma.

Mas eu te amo, muito, mesmo, viu?

Lu.

(08-02-2011)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Personagem

Sou uma personagem fictícia perdida no mundo real.

Alguma coisa deu errada na hora da minha concepção: era pra eu viver dentro de um livro, um filme, uma canção, um quadro... Qualquer lugar do mundo das idéias.
Mas, sei lá, ou faltou algum ingrediente mágico ou a minha passagem extraviou.
E eu vim para aqui, em um lugar ordinário, perdida entre contas pra pagar e falta de dinheiro, com problemas tão mundanos quanto os das pessoas de verdade.

É estranho não pertencer ao lugar onde vivo.
Há uma sensação de vazio impossível de se preencher, porque o que falta não vende em loja nenhuma, nem sob encomenda.

Faltam luzes, cores, sons, rimas.
Falta o extraordinário e todos os seus sinônimos.

Uma pessoa abstrata não se dá bem com provas, afazeres, hora marcada, burocracia...
E eu viveria bem só de poesia, romances, música, tintas, sonhos...
Não é que eu tenha alma de artista, ou dom, ou qualquer coisa assim.

Eu não sou criador, sou criatura.

Uma personagem criada não sei por quem, que perdeu o roteiro e veio parar no mundo errado.
Condenada a viver sem encantamento, presa entre a consciência de se saber inapta para o mundo real e a necessidade de se adaptar a ele...

(2007)
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Estava procurando um diálogo que quero publicar há mais de ano, ou um texto de fragmentos de poesias da Fernanda Young que prometi publicar em 2007... mas não achei nenhum dos dois. Encontrei, no entanto, vários outrosque talvez eu publique depois, da época em que eu morava em Niterói, sem internet, mas com computador. Ah, que saudades.
Este aqui, apesar de antigo, ainda é a minha cara.