[ATENÇÃO: O texto seguinte nunca pretendeu ser sério, ou sequer bom. Foi uma brincadeira, em 01/05/2005. Quer dizer, era uma grande ironia, uma piada interna que, se eu explicar, perde a graça, mas hoje reli e achei interessante. E, já que não tenho nada de novo pra escrever...]
_____________________________________
"É desconsertante rever o grande amor"
É noite, e ela reacende todas as lembranças. Estava com saudades de beber Eric Clapton com você, que é luz, raio, estrela e luar. Tinha me acostumado a vê-lo todos os dias, e agora é difícil acostumar-me com o "de vez em quando". Minhas madrugadas nunca mais foram as mesmas desde que você partiu. Nunca mais vi o dia nascer feliz, com o mundo inteiro acordando enquanto a gente ia dormir.
Depois de tantas indas e vindas com aquela com quem já tinha me acostumado, e da repentina obsessão pela outra, com a qual eu já estava me acostumando, surge uma nova. Não sei se posso agüentar. Eu quero estar na sua pele, me embriagar com seu perfume. Tenho ciúme dos seus olhos em outra direção.
Minha vida sem você não tem sabor, não tem cor. Nem flor, não há. Não há nada que ponha tudo em seu lugar, eu sei, mas queria tanto lhe trazer pra mim... Você está no meu corpo feito tatuagem, que é pra me dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem. Aonde quer que eu vá, levo você no olhar.
O dia está amanhecendo... peço o contrário: ver o sol se pôr. Porque está amanhecendo se não vou beijar seus lábios quando você se for?
Amanheceu. Olho pro céu e vejo como é bom ter as estrelas na escuridão. Espero você voltar, sem cansar.
A verdade é que eu já conheci muita gente e até gostei de alguns garotos... Eu tenho mil amigos, mas você foi o meu melhor namorado. Depois de você, os outros são os outros. E só. Mas você me tem fácil demais e não parece capaz de cuidar do que possui. Você me diz o que fazer, mas não procura entender que eu faço só pra agradar. Porque de vez em quando você me esquece e some? Porque você me deixa tão solta? Porque você não cola em mim? E se eu me interessar por alguém? Estou me sentindo muito sozinha, meu amor, cadê você? Não tem ninguém ao meu lado...
Então eu fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você. Não estou ao seu lado, mas posso sonhar... Se eu queria enlouquecer, essa é a minha chance, é o romance ideal. O quê que há com nós dois, amor? Me responda e depois me diz por onde você me prende, por onde foge e o que pretende de mim. Eu queria saber te prender como você faz comigo. E ver lá no escuro do mundo, onde está o que você quer, pra me transformar no que te agrada, no que me faça ver quais são as cores e as coisas pra te prender.
Eu te vi com ela, num sonho ruim, acordei chorando e por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais. Teus pelos, teu rosto, teu gosto, tudo que não me deixa em paz... e eu estava em paz quando você chegou.
Tenho feito tantas coisas pra enganar a solidão, mas eu sei que não tem jeito, é impossível te arrancar do coração! Porque é que você veio se não era pra ficar? Quem mandou você mandou deixar tanta saudade em seu lugar? E agora o que que eu faço se não existe igual a você? Eu não posso inventar outra paixão. Só no tempo e no espaço estou longe de você, porque sei que aqui dentro não vou te esquecer. Pode ser que eu esteja louca, me agarrando ao que passsou... Mas no fundo só um louco é que se entrega a um grande amor...
E eu já conheço os passo dessa estrada e sei que não vai dar em nada. Eu já conheço as pedras do caminho e sei também que ali, sozinha, eu vou ficar tanto pior! Mas o que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto... e que, no entanto, volta sempre a enfeitiçar? E aqui fico eu, te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou tua.
Estou cansada, tão cansada... Mas não pra dizer que não acredito mais em você. Nem pra dizer que estou indo embora. Hoje eu quero sair só, eu tenho que ir pra rua... Talvez eu volte, um dia eu volto. Eu só eu preciso esquecê-lo, minha grande, minha pequena, minha imensa obsessão.
Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo... De repente eu me vi assim, completamente sua. Vi a minha força amarrada no seu passo, sem você não há caminho, eu nem me acho. Eu vi um grande amor gritar dentro de mim como eu sonhei um dia. Quando o meu mundo era mais mundo e todo mundo admitia uma mudança muito estranha, mais pureza, carinho, calma e alegria no meu jeito de me dar. Quando a minha voz se fez mais forte, mais sentida. A poesia fez folia em minha vida, você veio me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa. Mas não tem revolta, não. Eu só quero que você se encontre. Saudade até que é bom... É melhor que caminhar vazio. A esperança é um dom que eu tenho em mim. Não tem desespero não, você me ensinou milhões de coisas. Tenho um sonho em minhas mãos, e amanhã será um novo dia. Certamente eu vou ser mais feliz!
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
The Sound of Silence
Falta de assunto,
acontece várias vezes.
Não porque realmente não tenhamos assunto algum,
mas porque há tantos possíveis,
que nenhum parece relevante.
E mais: ficamos tão preocupados em encontrar um assunto
para preencher um silêncio em uma conversa,
que acabamos não falando nada,
ou simplesmente falando sobre o tempo,
ou sobre o último capítulo da novela das oito.
Tiago e eu vivemos sem assunto ao telefone
e, estranhamente, nossas conversas normalmente são longas.
Dia desses, algo nos levou a falar sobre a chuva,
e ele, sabiamente, lembrou-se de um verso
do meu amado Mario Quintana:
"Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o céu! Lá faz sempre bom tempo..."
De fato, dificilmente conseguimos suportar
um longo período de silêncio diante de outrem.
Em uma madrugada qualquer
eu estava vendo tv quando começou
“Everybody Loves Raymond”, na Sony.
O Ray é casado com a Debra
há sei lá quantos anos.
Em um dia dos namorados,
eles vão para um restaurante
e não têm assunto algum.
Daí, ficam horas falando sobre
o pão e a manteiga.
Chegando em casa,
Debra começa a reclamar
da falta de assunto entre eles,
afinal, eles só conversavam sobre
família ou contavam antigas histórias
que já estavam cansados de ouvir
e de contar.
Não vou contar o episódio inteiro,
que nem foi tão brilhante assim.
Vou apenas tomar emprestado
algo que achei interessante
e sobre o qual me deu vontade de escrever.
Inclusive, vou logo avisando:
O assunto agora não é mais
“falta de assunto”,
e sim, “excesso de silêncio”.
Não é sobre experiências pessoais
com o silêncio,
mas sobre experiências coletivas
com ele.
Já há algum tempo
eu venho observando como as pessoas
respondem ao silêncio
quando têm outras pessoas à volta.
O silêncio incomoda.
Muitas vezes, quando duas ou mais pessoas estão assistindo a um filme
e, de repente, em uma cena,
faz-se silêncio,
começa-se a procurar alguma coisa,
não sei o quê.
É como se apenas a imagem não bastasse,
não fosse o suficiente para preencher aquele momento.
É preciso que haja algo mais:
um diálogo, uma música,
Sei lá! Qualquer coisa!
Por vezes é neste silêncio que começam a comentar o filme
ou falar sobre algum outro assunto que, porventura, antes houvesse escapado.
John Cage, artista contemporâneo norte-americano,
criou muitas obras experimentais com a música,
inclusive, a famosa 4’33”, em 1953.
4’33” é uma música composta inteiramente por pausas,
ou melhor, por silêncios.
Em sua primeira apresentação pública,
o pianista que ia interpretar a peça
entrou no palco em silêncio,
abriu a tampa do piano,
e ficou parado, olhando para a partitura
e acompanhando as pausas descritas.
O silêncio só era interrompido
para que o pianista virasse as páginas das partituras,
ou para que ele fechasse e abrisse novamente
a tampa do piano,
indicando o início de um novo movimento
– ainda de pausas –
da música.
A princípio, o público ficou quieto,
tentando entender o que se passava.
Após um breve tempo, iniciaram-se os cochichos,
as conversas, e as reclamações.
Quatro minutos e trinta e três segundos
foi o tempo máximo que o público conseguiu ouvir o silêncio sem reclamar.
No meu primeiro semestre na faculdade,
tive uma matéria de História da Arte
onde estudamos arte contemporânea.
Na sala, nunca ninguém havia ouvido
falar de John Cage ou do seu experimentalismo.
Então, o professor passou uma fita
com a apresentação da obra 4’33”.
A reação dos estudantes foi a mesma do público.
Primeiro, ficaram todos calados,
apreensivos com o início da música.
Conforme o tempo foi se passando e não se ouviu nenhuma nota do piano,
começaram a surgir ruídos, risadas, comentários e reclamações.
Depois, o professor explicou a intenção de Cage,
que não compôs uma música apenas de silêncio,
mas pelos sons ambientes dentro do teatro.
Assim, cada vez que 4’33” é apresentada,
é uma música diferente,
composta pelos silêncios e ruídos de cada platéia.
Ainda testando sua criação, Cage ouviu-a
dentro de uma sala onde som algum penetrava.
Mesmo assim, ele não pode ouvir o silêncio absoluto:
ouvia os ruídos de seu coração pulsando e de sua respiração.
Não é possível que haja silêncio absoluto onde tem alguém.
Muito menos onde há duas ou mais pessoas.
Ainda assim, é com medo desse silêncio absoluto
que as pessoas não se sentem confortáveis em silêncio.
Minha mãe é uma dessas pessoas.
Ela não consegue estar na presença de outra
sem falar ou ouvir algo.
Sabrina também é assim.
Só que ela chega ao extremo de dizer
qualquer primeira bobagem que passa pela cabeça
a fim de quebrar o silêncio.
Muitas vezes, quando eu estou perto
de alguém que não conheço muito bem,
sinto-me nessa obrigação de quebrar o silêncio,
para não parecer que não estou gostando da companhia
ou que a situação está desconfortável.
Engraçado.
Acho que isso acontece a muitas pessoas,
que ficam procurando assunto
por estarem em uma situação desconfortável
sem querer mostrá-la.
No tal episódio que eu vi, eles falavam também
de um silêncio ao qual eu já me referi,
alguma vez, por aqui: o silêncio reconfortante,
aquele que se dá entre duas pessoas
que se conhecem há muito tempo e se amam.
Creio que seja uma situação cada vez mais rara,
onde você consegue andar ao lado de alguém sem falar nada,
e sentir-se confortável ainda assim.
Conseguir ficar ao lado de uma pessoa,
trocando longos olhares recíprocos,
sem dizer uma só palavra,
mas, mesmo assim,
conversar através do olhar.
“O silêncio não sustenta o peso de longos olhares recíprocos, exceto nos filmes de amor, e nem mesmo nos filmes de amor porque ali, quando cessa o diálogo, o diretor sempre coloca uma música.” (Chico Buarque, Benjamim)
Chico Buarque parece não acreditar na existência disso.
Eu, tento acreditar.
Mas não sei se, de fato, o silêncio pode
sustentar “o peso de longos olhares recíprocos”...
O que sei, de fato,
é que é possível sentir-se bem na presença de outrem
sem a necessidade de um ruído sequer.
Que, só de estar na presença do outro
– que pode até estar dormindo,
ou em outro cômodo,
ou conversando com outra pessoa... –,
só de sentir a presença do outro,
parece que a vida ganha mais significado,
e que o mundo se torna um lugar mais agradável...
Enfim, não falemos mais nada.
Fiquemos todos no mais profundo e terno silêncio,
onde só podemos ouvir as nossas respirações
e o bater dos nossos corações
– e, sinceramente, o que de mais belo e simples poderíamos escutar?
(Acho que é de 2003)
segunda-feira, 7 de março de 2011
Reencontro
Uma história em três atos
(…) Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca”
Ato 3
- Esperando alguém?
- Você. Tinha certeza de que ia lhe encontrar aqui, então vim.
- As estrelas disseram?
- Por aí. Esperando alguém?
- Na verdade não. Estava de passagem, vi você, vim até aqui. Não podia decepcionar as estrelas.
- E o advogado?
- Você tinha razão. Namoramos por dois meses e eu entendi que não tinha futuro. Era sempre um papo muito chato.
- Esses advogados...
- Agora estou solteira. Livre, leve e solta.
- Como havia de ser!
- E é. E a menina pouco brilhante? Virou ex mesmo?
- Virou. Ela me trocou por um estudante de medicina. Acredita?!
- Nossa, será que era Ele!?
- Não sei. Mas foi bom, pelo menos eu não precisei me sentir culpado por terminar com Ela.
- Aposto que você até se fez de muito magoado para Ela se sentir culpada.
- Ah, só um pouco...
- Vocês, homens, são sempre assim: detestam terminar namoros. Preferem que as mulheres terminem para não precisarem sentir culpa.
- Não é bem assim. Foi para o bem dela. Tenho certeza que ela ficou muito mais feliz acreditando que eu queria continuar o namoro do que se eu tivesse terminado.
- O estranho é que esse raciocínio tem bastante lógica. E até um quê de romantismo.
- Claro que tem, eu sou romântico, já disse. Falando em romances, será que chegou a nossa hora?
- Pergunte às estrelas.
- Elas não sabem. São só estrelas, não bolas de cristal. Nem relógio.
- Você tinha razão, você é estranho.
- Eu avisei.
- Só num terceiro encontro para perceber.
- É meu charme. O maior de todos.
- Conceitos estranhos...
- Ah, disso você já sabia! Você deve mesmo ser minha lagosta.
- Você vê friends! As chances de você ser minha lagosta aumentaram exponencialmente.
- Nossos encontros e desencontros não podem ser por mero acaso.
- Isso já tá virando filme.
- Dirigidos por Sofia Coppola. É, acho que temos futuro. Ela pode até dirigir, mas nós fazemos o roteiro.
- Então vamos logo combinar: nada de filme de terror. Suspense, só de vez em quando.
- Comédia romântica ou filme cabeça?
- Sejamos cult, enquanto pudermos. Mas não muito, pra não cansar.
- Antes de mais nada, eu devo confessar uma coisa.
- Então vamos começar com confissões?! Espero que não vire filme religioso... ou pior, policial. Não matou ninguém, né? Seria muito estranho ter que ligar pro ex-namorado...
- Estranho, desagradável, tanto faz. Mas não matei ninguém, pelo menos que eu saiba. E também não é nada que me obrigue a rezar um rosário para me redimir.
- Você não tem mesmo a menor cara de quem reza rosários...
- Nem sei no que consiste, na verdade. Mas para de me enrolar e deixa-me confessar: desde que nos conhecemos, sempre marco meus encontros aqui.
- Eu sou mesmo irresistível, é o meu charme!
- E pretensiosa...
- Aprendi com você!
- Sorte que em você funciona.
- Bem, já que estamos confessando...
- Acho que mais cedo ou mais tarde vamos ter que descobrir como se reza um rosário!
- (risos) Eu também. Também acho e também marquei muitos encontros por aqui na esperança de rever você.
- É, teria sido mais fácil se você tivesse me dado o seu telefone…
- Nem sempre o melhor caminho é o mais fácil, né!
- Dificilmente é o mais divertido também.
- Então vem, vamos nos divertir.
- Fácil assim?
- Prefere esperar outro encontro casual?
- Claro! não sei começar nada sem meu charme de 15 minutos atrasado.
- Eu não abusaria da sorte…
- Peraí.
Alex sai. Marcela fica olhando, sem entender nada, até ele virar a esquina e sumir de seu campo de visão. Ela pensa que talvez ele tenha ido telefonar pra desmarcar o encontro que estava esperando, então espera. E espera mais um pouco. Depois de 5 minutos, começa a pensar que ele deve ter ido ao banheiro. Ou ele tinha marcado vários encontros com várias pessoas. Não… será? Não!… Depois de 10 minutos, já irritada com aquela espera toda, ela começa a reparar que os sapatos que está calçando aperta os dedões dos pés, o que a deixa ainda mais irritada! De repente, ela é abraçada pelas costas, mas nem tem muito tempo de se assustar e sente um beijo em seu rosto, muito carinhoso, beijo de gente culpada.
- Estou há quinze minutos te esperando, aff! Esse seu charme não funcionou comigo. - Ela fala olhando pra ele, franzindo a testa e cruzando os braços. Faz até um bico indignado pra completar a pose.
- Eu não acabei ainda. - E, de surpresa, dá um beijo nela, na boca dessa vez, né!, desmanchando aquele biquinho, e bom, hummm.
- Hummm... então é esse o seu charme...
quarta-feira, 2 de março de 2011
Desencontro
Uma história em três atos
“(… )Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar (…)”
Mas se o destino insistir em nos separar (…)”
Ato 2
- Você marca todos os seus encontros aqui? – Ela o surpreende com um sorriso no rosto.
- Só quando você marca os seus.
- Como você sabe que vou encontrar alguém?
- Elementar. Eu sou sua versão masculina, lembra?
- Somos almas gêmeas.
- Muito provavelmente. Ele tá atrasado?
- Não, ainda não. Dessa vez eu cheguei na hora. Ele tem quinze minutos de tolerância.
- É o médico?
- Não, é outro. O médico virou ex mesmo.
- Namorado?
- Não exatamente. Pelo menos não por enquanto e não com o rótulo.
- Imitadora.
- E você, esperando a futura namorada em potencial, pouco brilhante?
- Não é mais futura. Agora é atual. Pelo menos por enquanto.
- Já pensando em terminar?
- Nós nos desencontramos muito, não está funcionando. Pelo menos eu já tenho o telefone dela.
- E já ligou?
- Não. Talvez seja um agravante para os nossos problemas de comunicação. Ela vive reclamando que eu nunca ligo.
- Mas esse é o seu charme!
- Pois é! Só você me entende…
- E só porque eu sou sua versão feminina. Caso contrário, também não entenderia.
- Ainda bem que a vida não é feita de casos-contrários. Este seu não-namorado vai virar namorado?
- Não sei. Ele até tem potencial, mas vamos ver. Está em fase de testes.
- Não vai dar certo.
- Não rogue praga!
- Não é praga, é fato. Esse não namoro está fadado ao fracasso. Tá escrito nas estrelas.
- Você tem estrelas cultas!
- E bregas, eu sei. Mas sábias.
- E porque elas dizem que não vai dar certo?
- Por que ele não é sua alma gêmea. Nós já sabemos disso.
- Muito platônico você.
- Eu sei, não posso evitar. Sou um romântico incurável.
- Seu novo charme.
- Aquele nosso encontro… Eu não pude vir.
- Não importa, eu também não pude. De qualquer forma, nos encontramos. E sem marcar.
- Encarando de outra forma, nós dois viemos. Com algumas semanas de atraso.
- Pontuais em nossos atrasos. Definitivamente almas gêmeas.
- Desencontradas, mas gêmeas.
- Ela está muito atrasada?
- Na verdade, nem um pouco. Eu que cheguei cedo.
- Nossa, que avanço, você chegou cedo!
- Eu estava por perto e sem nada para fazer. Cheguei aqui poucos minutos antes de você.
- Ainda bem que você não me deixou esperando!
- Eu nunca faria isso, você poderia ficar traumatizada.
- Ficaria mesmo, sem dúvidas.
- Esse agora também quer ser médico?
- Não. Advogado.
- Advogado?! Tá vendo só, que futuro isso pode ter?
- Ah, advogados não são tão ruins…
- Você diz isso porque ainda não é seu namorado. Se fosse, você pensaria diferente.
- Talvez. Só vou saber quando for.
- Não perca seu tempo, largue logo dele. Não vai dar certo, você sempre vai pensar em mim.
- Pretensioso, você!
- Realista, acima de tudo.
- Já que está escrito nas estrelas, não precisamos nos preocupar.
- Mas podíamos nos poupar um bom tempo.
- "Não se afobe não que nada é pra já..." Quem sabe um dia a gente se encontra, livres e desimpedidos. Sem futuros namorados em potencial ou atuais futuros ex.
- Falando nisso, ela está vindo. Até a próxima vez, Marcela.
- Até lá, Alex.
- Preste mais atenção às estrelas.
- Elas são bregas, mas sábias, né?!
- Não duvide.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Encontro
Uma história em três atos
“Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz (…)”
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz (…)”
Ato 1
- Que horas são?
- Já são sete e trinta e dois. Maldito!
- Desculpa!
- Não, não é com você…
- Ele tá atrasado?
- Como você sabe que é Ele?
- Quem mais poderia ser?
- Verdade… E está. Marcou comigo às sete em ponto. Estou aqui desde dez para as sete e nada do infeliz.
- Namorado?
- Não sei. Costumava ser, mas temos brigado e nos desencontrado tanto, que marcamos pra conversar. Hoje, trinta e dois minutos atrás. Estou criando raízes aqui e nada dele. Eu mereço. É vingança, tenho certeza… Não devia tê-lo feito me esperar tantas vezes. Aqui se faz, aqui se paga.
- É o que dizem.
- Não sei se continuo esperando ou se aceito logo que levei um bolo e vou-me embora.
- Espere um pouco mais, faça-me companhia.
- Ela está atrasada?
- Como você sabe que é Ela?
- E quem mais haveria de ser?
- É, você tem razão. Eu sou a sua versão masculina.
- Marcaram que horas?
- Sete e dez. Eu cheguei atrasado. Saí de casa às sete e dez.
- Ela é pontual?
- Costuma ser.
- Namorada?
- Não exatamente. Pelo menos não por enquanto, não com o rótulo.
- Entendo... Você sempre se atrasa?
- Normalmente. Eu sempre acho que dá tempo de chegar em qualquer lugar em dois minutos. Nunca conto o tempo que demora pra pegar o carro, estacionar, chegar ao lugar marcado… Se bem que hoje eu nem me atrasei muito. Dez minutos não é praticamente nada.
- É um tempo razoável. Ele sempre se atrasa também. Mas nunca mais de dez minutos, é a primeira vez. Só porque eu cheguei antes! Vai ver Ela previu seu atraso e resolveu se atrasar mais quinze minutos, pra fazer um charme.
- Ela não é tão esperta assim.
- Coitada da sua futura namorada. Você não é nada romântico.
- Romântico eu até sou, mas realista, acima de tudo.
- Ela deve estar com Ele.
- E Murphy. Todos juntos. Isso sim é romântico. Vocês namoram há muito tempo?
- Bastante. Seis meses, mais ou menos. E em seis meses ele nunca se atrasou mais de dez minutos. Só hoje, e só porque eu cheguei cedo. Ninguém merece.
- É pra você aprender a nunca chegar na hora, muito menos antes.
- Lição aprendida. Se bem que você chegou atrasado e não adiantou nada.
- Eu tenho que aprender a chegar na hora. Ela já deve ter vindo aqui. Não me encontrou, não quis esperar e foi-se embora.
- Será? Nada charmosa.
- Nem esperta, como eu disse.
- Sete e quarenta e três. Acho que eu já esperei demais.
- Você já tentou ligar pra Ele?
- Tentei. Fora da área de cobertura ou desligado. Como sempre. Não sei pra quê Ele tem um telefone.
- Pra dar “fora da área de cobertura ou desligado”. É um charme.
- Seu conceito de charme é meio esquisito.
- Todos os meus conceitos são meio esquisitos. Assim como eu.
- Você não me parece esquisito.
- Você é que me conhece pouco.
- Fato. Dez minutos não é tempo suficiente pra se conhecer alguém.
- Só é tempo suficiente para se atrasar.
- E pra esperar. Devia existir um estatuto do atraso e da espera. Tempo máximo pra alguém se atrasar: quinze minutos. Tempo máximo pra se esperar por alguém: vinte. O mundo seria um lugar mais tranqüilo.
- E teria menos gente na rua.
- Com certeza. Você já tentou ligar pra Ela?
- Eu nunca ligo pra Ela. Esse é o meu charme. Ela é quem me liga.
- Então Ela deve estar se vingando, fazendo você esperar tempo o suficiente pra cansar e ligar.
- Não vai funcionar. Eu não tenho o telefone dela.
- Você não tem o telefone da sua futura namorada em potencial?
- Pra quê se eu não ligo?
- Exatamente para eventualidades como essa. Se existe a possibilidade de vocês namorarem, acho que você devia pelo menos ter o número. Ainda que seja para não ligar.
- Tudo bem, você venceu. Assim que eu a encontrar, anoto o telefone.
- Muito bem. Dê mais valor a Ela. O meu namorado, por exemplo, teria maiores chances de continuar sendo meu namorado se telefonasse pra dizer que ia se atrasar.
- Você está mesmo pensando em terminar?
- Cada vez mais sério. Eu ouço mais a gravação de “fora da área de cobertura ou desligado” do que a voz dele desde que começou a faculdade. Maldita faculdade.
- Ele faz o que?
- Medicina. Quer salvar o mundo. E me deixar esperando.
- Ele deve estar treinando. Todo médico faz questão de nos deixar esperando, nunca atendem na hora marcada.
- Ótimo. Agora virei paciente estagiária do meu futuro ex-namorado. E a sua futura namorada está aprendendo com Ele.
- Ela não é tão esperta pra fazer medicina. Nem faculdade faz.
- Você fala dela como se ela fosse uma besta quadrada.
- Não é quadrada. Pelo menos por enquanto. Mas há uma grande chance de se tornar redonda daqui a uns vinte anos.
- Nossa, que amor!
- Pra você ver, Ela é pouco brilhante, mas mesmo assim eu gosto.
- Enfim romântico.
- Viu?! Estou aprendendo. Vou até anotar o telefone dela!
- Parabéns! Quem sabe um dia você liga, né?
- É, quem sabe!
- Sete e cinqüenta e três. Ainda bem que encontrei você. O tempo está passando mais rápido.
- O tempo é uma criatura interessante. Um minuto sempre tem mais de sessenta segundos quando você não está fazendo nada.
- E menos quando você está.
- De qualquer forma, quase quarenta minutos é demais para um atraso, né? Mesmo que eu só esteja aqui há vinte e cinco, e que os últimos vinte e poucos tenham voado.
- Verdade. Acho que já podemos ir embora sem sentir culpa por não termos esperado.
- Seria um desperdício.
- Ir embora?
- Esperar tanto tempo para nada.
- Quer tomar um café então?
- Falou a palavra mágica!
- Ótimo, estou morrendo por um café.
- Alex, muito prazer.
- Marcela.
Os dois vão tomar um café. Ela liga para o Alex e conta que a mãe começou a passar mal e por isso não pôde ir. Pede que ele vá até sua casa para se verem. Marcela liga de novo para Ele e consegue completar a ligação. Ele diz que está esperando há dez minutos e ela não aparece. Marcela descobre que tinham marcado às oito, não às sete. Marcela e Alex se despedem. Marcela vai ao encontro dele e Alex para a casa dela.
- Foi muito bom esperar e tomar um café com você.
- Igualmente. Quando decidir confundir o horário e ficar uma hora esperando à toa, pode me chamar.
- Eu já tenho uma qualidade para ser sua futura namorada em potencial, tá vendo?! Também não sou muito brilhante…
- Você tem outras qualidades para ser minha futura namorada em potencial. Falta de brilhantismo não é uma delas.
- Bom saber. Ainda tenho potencial.
- Quando lhe vejo de novo?
- Que tal daqui a um mês, no mesmo lugar em que nos conhecemos. Às sete e meia?
- Sem atrasos?
- Com quinze minutos de tolerância, nem mais nem menos.
- Você vai me dar seu telefone pro caso de eu me atrasar mais?
- Pra quê, você não vai ligar. É seu charme.
- Verdade. Então nos vemos mês que vem.
- Até lá. Bom começo de namoro pra você.
- E bom término pra você.
domingo, 16 de janeiro de 2011
era não era
Não era pra ser assim,
não era pra eu estar sozinha
e fazer nada dos meus dias,
era pra você esperar por mim
Não era pra ser só sombras,
era pr'eu enxergar a luz do sol
e brilhar com suas estrelas
Era você o meu farol
Agora eu sou repetitiva,
Falo só em nostalgia, melancolia
e outros clichês com ou sem rima,
porque estou perdida, à deriva.
Se eu era música,
você era meu sustenido.
Mas agora todo canto
não passa de ruído.
Era pra você estar no meu mundo,
da minha palavra ser o adjunto.
Não era pra ter tanta lágrima,
o plano era mesmo ficarmos juntos
só quero me derreter nos seus braços
domingo, 9 de janeiro de 2011
suicídio
- Naquela época eu não estava muito bem, estava ocupado querendo me matar...
- Você?! Tentando suicídio? Por quê?- Foi uma questão filosófica: estava tentando me desconstruir.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Retrospectiva 2006
- Olá! Há quanto tempo...
- Pois é... comé que você está?
- Tô indo... e você?
- Estou bem, na mesma.
- "Na mesma"... Isso quer dizer que você está sempre bem?
- "bem" e "na mesma" usados na mesma frase indicam que a vida anda meio tediosa. Nada vai e nada vem; fica sempre na mesma. Como tenho muita noção de que as coisas poderiam ser bastante piores, digo que estou bem. É uma visão parcialmente otimista do tédio.
(Pq fazer retrospectiva do ano que acabou há menos de um mês seria mole demais)
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Então, aquela história de manter promessas de ano novo não parece estar indo muito bem... mas é que eu demoro pra pegar no tranco. Mais cedo ou mais tarde a negligência me abandona.
Ah, o Jamie Cullum, do post passado: é um jazzista-pop, ou coisa que o valha. Não entendendo de rótulos para músicos, mas também, o que vale é o conteúdo. Quem não conhece, acho que vale a pena colocar o nomezinho dele no youtube e descobri-lo. Provavelmente você já ouviu "Mind Trick" por aí (mesmo pq, alguns sem-coração fizeram uma versão sofrível em português...). É uma dessas músicas que te anima só pela melodia, música alegre, sabe?! Tem cara de fim-de-semana ensolarado viajando com amigos. Pelo menos é o que me vem à cabeça. O Jamie repaginou vários sucessos de antigamente, tipo "I only have eyes for you", "What a difference a day makes", "I get a kick out of you", "In the wee small hours of the morning", "Singing in the rain"... E tb tem músicas originais. Pessoalmente, gosto de todas, me apaixonei a primeira ouvida. Se estiver a toa, experimente, acho que valerá a pena.
- Pois é... comé que você está?
- Tô indo... e você?
- Estou bem, na mesma.
- "Na mesma"... Isso quer dizer que você está sempre bem?
- "bem" e "na mesma" usados na mesma frase indicam que a vida anda meio tediosa. Nada vai e nada vem; fica sempre na mesma. Como tenho muita noção de que as coisas poderiam ser bastante piores, digo que estou bem. É uma visão parcialmente otimista do tédio.
(Pq fazer retrospectiva do ano que acabou há menos de um mês seria mole demais)
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Então, aquela história de manter promessas de ano novo não parece estar indo muito bem... mas é que eu demoro pra pegar no tranco. Mais cedo ou mais tarde a negligência me abandona.
Ah, o Jamie Cullum, do post passado: é um jazzista-pop, ou coisa que o valha. Não entendendo de rótulos para músicos, mas também, o que vale é o conteúdo. Quem não conhece, acho que vale a pena colocar o nomezinho dele no youtube e descobri-lo. Provavelmente você já ouviu "Mind Trick" por aí (mesmo pq, alguns sem-coração fizeram uma versão sofrível em português...). É uma dessas músicas que te anima só pela melodia, música alegre, sabe?! Tem cara de fim-de-semana ensolarado viajando com amigos. Pelo menos é o que me vem à cabeça. O Jamie repaginou vários sucessos de antigamente, tipo "I only have eyes for you", "What a difference a day makes", "I get a kick out of you", "In the wee small hours of the morning", "Singing in the rain"... E tb tem músicas originais. Pessoalmente, gosto de todas, me apaixonei a primeira ouvida. Se estiver a toa, experimente, acho que valerá a pena.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Ressaca
E lá estava ela, caminhando trôpega de volta para casa. Podia ser culpa do sapato alto na rua sem asfalto, ou até mesmo da fome que começava a devorar as paredes do estômago, mas o fato é que ela andava bêbada sem ter ingerido uma gota de álcool sequer. No caminho, pensamentos desvairados, desconexos, diálogos imaginários descuidados, preocupações do dia que se passou e dos que ainda estavam por vir. Nunca mais passaria um dia inteiro em jejum, ela jurava para si mesma, como já havia feito centenas de outras vezes, sem nunca cumprir. Ele iria passar em sua casa esta noite, para enfim colocar os pingos nos is, ele prometeu. Verdade que não era a primeira vez que prometia isso. Assim como ela, ele também tinha uma sacola cheia de promessas não cumpridas. Mas desta vez ela acreditava que seria diferente. Antes de sair do trabalho, ela passou no supermercado e fez compras para um jantar a dois, onde, enfim, os is ganhariam pingos. Talvez viesse daí a sensação de ressaca. Sua rua parecia mais longa do que nunca, e seus passos, mais tortos. Sua vida inteira parecia torta, bêbada. A vida bêbada de uma pessoa sóbria. Talvez um pouco de álcool curasse tudo. Não dizem que o melhor remédio para ressaca é mais um gole? Ou um copo inteiro? Além do que, o álcool desinfeta, e ela precisava disso: desinfetante para a alma. Uma vida na ressaca por não ser vivida, culpa dos malditos is sem pingos.
Um cigarro. Talvez um cigarro ajudasse. Dizem que cigarro combate a ansiedade. Um barzinho, “um maço de cigarros, por favor” “Qual?” Qual? Já decidira comprar cigarros, agora ainda tinha que escolher um? Pediu um Marlboro, automaticamente. Era o cigarro que ele fumava e ele raramente ficava ansioso. Devia funcionar. Seguiu seu caminho torto, com passos tortos, até enfim chegar em casa. Abriu a porta, entrou, acendeu as luzes. Olhou para a sala vazia com estranhamento. Não parecia a mesma sala que deixara de manhã. Foi até a cozinha largar as compras. Cozinha vazia, limpa e arrumada. Seguiu para o quarto, onde deixou a bolsa. As coisas nunca ficavam tão arrumadas com ele em casa. E ela gostava da casa arrumada. Mas temia a casa vazia. O silêncio a aterrorizava, ligou o rádio. Sentiu novamente a tal da ressaca, lembrou-se dos cigarros. Foi até a cozinha em busca de fósforos. Pegou a caixinha cheia dentro do armário, tirou um palito e o riscou. Lembrou-se de como ele riscava o fósforo ao contrário, e de quantos isqueiros ela deu a ele, que perdeu. Nossa, foram tantos… “Ai!” Voltou do passado com a chama quente perto do dedo. Apagou o fósforo num reflexo. Pegou o maço de cigarros, abriu e puxou um, esforçando-se para não reacender mais lembranças. Acendeu o cigarro, catou um cinzeiro – lembrança dele – e sentou-se. A última vez que fumara na vida foi no início da faculdade. Nossa, há quanto tempo… Tragou o cigarro, sentiu a fumaça entrando em seus pulmões e lembrou-se das amigas do colégio e de seu primeiro cigarro. Soltou a fumaça e ficou quase orgulhosa ao constatar que depois de vários anos sem fumar, não engasgara. Sentiu um alívio imediato. Tanto tempo sem um cigarro e esta continuava sendo uma prática válvula de escape. Continuou sentada, divagando, enquanto a brasa consumia o cigarro e as lembranças consumiam sua alma.
Pouco antes de chegar no filtro, apagou o cigarro. A fome voltou a devorar as paredes do estômago. Sentiu dor de cabeça e tontura, achou melhor fazer a janta, ele chegaria a qualquer momento. Preparou a comida com cuidado e dedicação. Sabia que o tempero estava perfeito, do jeitinho que ele gostava. O tempo passava e nada da campainha tocar. A fome gritava. Decidiu comer logo, esquentaria tudo quando ele chegasse, e até comeria um pouquinho novamente, só para acompanhá-lo. A dor de cabeça passou, mas o sentimento de ressaca continuava. Já estava ficando tarde, onde ele estava? Os is precisavam dos pingos, estavam irriquietos como crianças sem pais. Sentou-se para esperar. “Será que aconteceu alguma coisa? Por que ele não telefona? Também não vou ligar, é melhor”. O tempo passava, implacável. Ela, escorregando pelo sofá, tentando manter-se atenta, perdeu a briga para o cansaço e caiu no sono.
Acordou com o sol invadindo a sala e acariciando seu rosto. Já era quase hora de ir para o trabalho. Mais uma espera em vão. Mais uma promessa violada, de um amor que tanto prometeu e nunca cumpriu. Levantou-se e foi para o banho, arrumar-se para mais um dia de ressaca.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
sonhos
Sonhei que dormia,
o dia se esvaia em uma tarde cinza de céu nublado.
Revoltas, as águas do mar batiam na areia me pedindo pra acordar.
Mas não atendi,
continuei a dormir, sonhando.
Sonhei que sonhava,
o dia amanhecendo em uma bela manhã de céu ensolarado.
Nas águas calmas do mar, eu velejava
rumo ao desconhecido distante, uma nova aventura...
até que então, acordava.
Sonhei que acordava,
uma noite morna e estrelada, o amor ao meu lado,
sem mar, sem areia, sem barco,
mas quem precisa dessas coisas?
Acordei.
só
o quarto escuro e frio,
o mortal silêncio da madrugada.
Pela janela, contemplando a lua cheia e prateada,
já não me sabia mais
se dormindo
ou sonhando
ou acordada…
Querendo viver meus sonhos e realidades,
mesmo que paralelas,
mas infinitas em possibilidades…
(06/07/2002)
o dia se esvaia em uma tarde cinza de céu nublado.
Revoltas, as águas do mar batiam na areia me pedindo pra acordar.
Mas não atendi,
continuei a dormir, sonhando.
Sonhei que sonhava,
o dia amanhecendo em uma bela manhã de céu ensolarado.
Nas águas calmas do mar, eu velejava
rumo ao desconhecido distante, uma nova aventura...
até que então, acordava.
Sonhei que acordava,
uma noite morna e estrelada, o amor ao meu lado,
sem mar, sem areia, sem barco,
mas quem precisa dessas coisas?
Acordei.
só
o quarto escuro e frio,
o mortal silêncio da madrugada.
Pela janela, contemplando a lua cheia e prateada,
já não me sabia mais
se dormindo
ou sonhando
ou acordada…
Querendo viver meus sonhos e realidades,
mesmo que paralelas,
mas infinitas em possibilidades…
(06/07/2002)
sábado, 13 de outubro de 2007
Ah!
Ah, a vida!
Este joguinho de gato-e-rato
que dá tanto gosto
quanto desgosto de se brincar,
que nos deixa felizes, arrasados,
lavados, amarrotados,
e até passados,
tudo de uma vez...
que nos traz lágrimas atrás de sorrisos,
atrás de esperanças, atrás de desesperos,
atrás de recomeços, atrás de inconclusões...
uma seqüência aleatória
de escolhas erradas,
mal-entendidos,
desentendidos
e parcos entendimentos.
Vidinha de medos,
inseguranças,
incertezas,
absolutas ou parciais,
raramente imparciais.
ela, que é madrinha sem ser fada,
que amarga ao adoçar,
às vezes erra na mão
e azeda,
mas recicla.
Ah, a vida...
seja em verso ou prosa,
romance, drama ou terror,
forró, MPB, rock ou funk...
seja tudo e ao mesmo tempo,
ou nada e nunca...
Quem me dera viver um sonho a cada dez vidas que sonho!
Este joguinho de gato-e-rato
que dá tanto gosto
quanto desgosto de se brincar,
que nos deixa felizes, arrasados,
lavados, amarrotados,
e até passados,
tudo de uma vez...
que nos traz lágrimas atrás de sorrisos,
atrás de esperanças, atrás de desesperos,
atrás de recomeços, atrás de inconclusões...
uma seqüência aleatória
de escolhas erradas,
mal-entendidos,
desentendidos
e parcos entendimentos.
Vidinha de medos,
inseguranças,
incertezas,
absolutas ou parciais,
raramente imparciais.
ela, que é madrinha sem ser fada,
que amarga ao adoçar,
às vezes erra na mão
e azeda,
mas recicla.
Ah, a vida...
seja em verso ou prosa,
romance, drama ou terror,
forró, MPB, rock ou funk...
seja tudo e ao mesmo tempo,
ou nada e nunca...
Quem me dera viver um sonho a cada dez vidas que sonho!
domingo, 7 de outubro de 2007
Purgatório
A madrugada estava triste como sua alma. A vida lhe parecia um erro. Tanto já havia chorado, gritado e se desesperado que mal lhe restavam forças para respirar. Tudo que havia feito, deixado de fazer, dito e ouvido fazia a cabeça girar. A última discussão ecoava ininterruptamente em seus pensamentos. Cada insulto e agressão parecia cortar a pele, um súbito sentimento de culpa sufocando o coração. Tirou toda a roupa, despindo-se de seus problemas, um a um, peça por peça. Ligou o chuveiro e deixou a água gelada cair sobre a cabeça. Sentiu o choque térmico e tremeu, mas não recuou. Esvaziou a mente. Parou de pensar para simplesmente sentir cada gota que molhava seu corpo. Ensaboou-se delicada e milimetricamente, como se aquele fosse o último e o primeiro momento de sua vida. Viu descer pelo ralo toda a sujeira, dor, culpa e tristeza que antes carregava. Assim foi seu purgatório. Saiu do banho purificada e, vendo os primeiros raios de sol iluminarem e aquecerem a cidade, teve a certeza absoluta de que tudo ficaria bem. Tinha que ficar.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Des-
percorro descaminhos,
desconstruo idéias,
conforto-me no desconsolo.
desfaleço procurando,
desencontro-me.
uma vida desfeita em certezas.
descabelada,
desavisada,
desmotivada.
desfocadas, minhas lentes
mostram apenas o deserto.
destôo da palheta de cores,
não faço por desmerecer.
sou um amontoado de ilusões
desmontadas
desperto meu cinismo,
despeço-me do romantismo...
(despreocupe-se, después ele volta.
não há desalmado capaz
de desterra-lo para sempre!)
destemida, caço tigres,
desarmo bombas,
desvendo mistérios
e vendo tudo por aí,
despercebida...
aí eu me desminto:
minha vida é metafórica.
e desaforada.
desconstruo idéias,
conforto-me no desconsolo.
desfaleço procurando,
desencontro-me.
uma vida desfeita em certezas.
descabelada,
desavisada,
desmotivada.
desfocadas, minhas lentes
mostram apenas o deserto.
destôo da palheta de cores,
não faço por desmerecer.
sou um amontoado de ilusões
desmontadas
desperto meu cinismo,
despeço-me do romantismo...
(despreocupe-se, después ele volta.
não há desalmado capaz
de desterra-lo para sempre!)
destemida, caço tigres,
desarmo bombas,
desvendo mistérios
e vendo tudo por aí,
despercebida...
aí eu me desminto:
minha vida é metafórica.
e desaforada.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
sôdade
Parece que foi há
semanas,
séculos,
milênios...
E foi.
Foi todo esse tempo
e mais um pouco,
todo esse tempo
e um pouco mais.
Todo o tempo do mundo
nunca é suficiente.
e "nunca",
nem é tanto tempo assim.
Não é exagero
É saudade.
semanas,
séculos,
milênios...
E foi.
Foi todo esse tempo
e mais um pouco,
todo esse tempo
e um pouco mais.
Todo o tempo do mundo
nunca é suficiente.
e "nunca",
nem é tanto tempo assim.
Não é exagero
É saudade.
sábado, 21 de julho de 2007
chuva
“O coração é um músculo muito elástico”
Woody Allen,
em Hannah e Suas Irmãs
Começou um temporal enquanto voltava para casa.
Lembrei-me outro como este, quando você me deixou
e eu saí andando sem rumo madrugada adentro,
desejando que aquela água lavasse a alma
e levasse embora as lágrimas.
Só mesmo o barulho da chuva chicoteando o chão
pra abafar gritos de tristeza, raiva e incompreensão.
Cheguei a desejar uma pneumonia arrebatadora,
para culpá-lo ou pelo menos justificar tanta tristeza
(talvez a dor física pudesse superar as dores do coração).
Há tempos não pensava em você
(que fez temporal em minha vida)...
Cheguei em casa encharcada
lembrado de outro tempo,
quando te acompanhei a um lugar estranho,
cercada por gente estranha,
apenas seguindo o teu sorriso.
Sozinha
perdida
iludida.
Hoje,
o som da chuva no telhado a fazia parecer mais forte do que era
(o diabo nunca é tão ruim quanto o pintam).
Já quase seca, um impulso leva-me de volta à chuva,
na varanda
As gotas tocam meu rosto,
como o céu devondo as lágrimas derramadas;
uma remição tardia.
De repente, um sorriso,
que vira risada
e explode em gargalhada.
Quem está na chuva é para se molhar.
Mas depois a gente se seca.
Eu me sequei.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
É
É, só pode ser amor, acho que você tem razão. Fico mais feliz ao seu lado. Sou mais eu quando estou com você. Já em sua ausência, sou toda você. Tá certo, você já sabia: só podia ser amor. Mas como foi que eu cheguei à conclusão sozinha? Logo eu que não acreditava em amor? Foi difícil, eu lhe garanto. O processo de aceitação mais lento e gradual pelo qual já passei. Começou com afeição, virou encantamento, seduziu-se com a cumplicidade, confundiu-se com amizade. No meio da fase da acomodação, espantou-se com vontade, necessidade, ciúmes e brutais saudades. Por fim veio à luz. Amor, só pode ser amor... Afeiçãozinha safada aquela, não? E agora, que nós dois sabemos disso, é melhor pararmos de perder tempo, não acha? Então, vamos correndo para o centro da Terra, onde o calor intenso vai conservar nossa chama?
terça-feira, 17 de julho de 2007
reerrar
"give me reason, but don't give me choice
cause I will just make the same mistakes again"
(James Blunt)
Parece que tudo o que passou
ainda nem aconteceu
Minha vida roda ao contrário
Giro em torno do meu próprio mundo,
à deriva no universo...
Eu sou o que vem antes do passado,
a memória de um peixe.
Vivo de recomeços,
sempre há um novo erro a se cometer.
E os nossos inícios são sempre inéditos
- novos erros, eu diria -
novos inícios pro que nunca teve fim.
(dez. 2005)
quinta-feira, 12 de julho de 2007
romantismo de uma cética
Rio de Janeiro, 3 de novembro de 2002.
Querido espelho (já explico),
Havia uma tormenta em minha mente, então decidi escrever para me aliviar um pouco das idéias que me perseguiam. Como você bem sabe, acredito que as idéias e os pensamentos só tomam forma e podem ser melhor analisados ao ganhar o mundo. Por isso, trago-lhe meus pensamentos, para que você me ajude a analisá-los e desvendá-los. Ninguém melhor do que você para ajudar-me nessa árdua tarefa…
Havia uma tormenta em minha mente, então decidi escrever para me aliviar um pouco das idéias que me perseguiam. Como você bem sabe, acredito que as idéias e os pensamentos só tomam forma e podem ser melhor analisados ao ganhar o mundo. Por isso, trago-lhe meus pensamentos, para que você me ajude a analisá-los e desvendá-los. Ninguém melhor do que você para ajudar-me nessa árdua tarefa…
Então… depois desse primeiro parágrafo explicando o porquê de tão inusitada carta, posso, enfim, ir ao assunto que nos trouxe aqui: eu pensava em você. Ou melhor, em mim. Ou, mais exatamente, no amor. Calma que tudo é justificável.
Antes de lhe conhecer, não acreditava no amor. E talvez ainda não acredite. Bem, certamente não acredito no amor da forma em que ele é exposto na mídia. Não acredito na impossibilidade de uma pessoa viver sem a outra. Mas acredito sim que uma pessoa não queira viver sem a outra. Esse é o meu caso. Pelo menos por enquanto (Não acredito no perpétuo, mas adoraria que você me provasse errada).
Drummond escreveu: “o que pode uma criatura senão, entre outras criaturas, amar?”. Agora começo a entendê-lo. E começo a entendê-lo não porque amo (pois nem sei se amo), mas porque fiquei pensando nos mecanismos dos quais o coração se utiliza para escolher a quem amar. Renato Russo cantou “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”. Com todo o respeito, não acredito na aleatoriedade do coração. Acho que, se gostamos, gostamos por um motivo, e se amamos, amamos por um motivo ainda melhor.
Prometo que esta será minha última citação, e, como não poderia deixar de ser, de um dos nossos poetas favoritos, Mário Quintana. “O amor é um beijo no espelho…”. Essa pequena frase norteou todo o meu pensamento. Escolhemos para amar àquele que mais se parece conosco: amamos quem tem em si o que gostamos em nós, ou o que gostaríamos de ter. Amar é enxergar-se no outro. Você é assim. É o que eu sou e o que eu gostaria de ser. É meu espelho.
Sei que havia prometido, mas outra (e agora sim última) citação se faz necessária… (nada como subverter minhas próprias regras) “Amar é admirar com o coração. Admirar é amar com o cérebro” (Theophile Gautier).
Perdoe-me se não pareço tão romântica, se a minha visão de amor é um tanto narcisista e egoísta, mas cada um é romântico a seu jeito. Eu sou ao meu. Talvez ao nosso.
Com amor e admiração,
LM
terça-feira, 10 de julho de 2007
breves
..::..
Desperto
Disparo
De perto
Destroços
..:::..
alguma coisa
aqui dentro
me consome
mas depois
que passsa
o tempo
some
..::..
Desperto
Disparo
De perto
Destroços
..:::..
alguma coisa
aqui dentro
me consome
mas depois
que passsa
o tempo
some
..::..
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