domingo, 7 de outubro de 2007

Purgatório

A madrugada estava triste como sua alma. A vida lhe parecia um erro. Tanto já havia chorado, gritado e se desesperado que mal lhe restavam forças para respirar. Tudo que havia feito, deixado de fazer, dito e ouvido fazia a cabeça girar. A última discussão ecoava ininterruptamente em seus pensamentos. Cada insulto e agressão parecia cortar a pele, um súbito sentimento de culpa sufocando o coração. Tirou toda a roupa, despindo-se de seus problemas, um a um, peça por peça. Ligou o chuveiro e deixou a água gelada cair sobre a cabeça. Sentiu o choque térmico e tremeu, mas não recuou. Esvaziou a mente. Parou de pensar para simplesmente sentir cada gota que molhava seu corpo. Ensaboou-se delicada e milimetricamente, como se aquele fosse o último e o primeiro momento de sua vida. Viu descer pelo ralo toda a sujeira, dor, culpa e tristeza que antes carregava. Assim foi seu purgatório. Saiu do banho purificada e, vendo os primeiros raios de sol iluminarem e aquecerem a cidade, teve a certeza absoluta de que tudo ficaria bem. Tinha que ficar.

2 comentários:

Cacau disse...

Vontade de roubar esse post também... e é o que vou fazer "passar a mão!", hehe

Foi lá no blog q te indiquei, o Realidade Torta?

Bjs.

Adrielly disse...

Nossaaaaaaaaaaaaaaaa.
EU amo narrativas. Amo histórias assim.
x)~~

E eu acho que tudo que eu preciso
é do meu purgatório, do meu banho frio,
e queria que todos os meus purgatórios
fossem assim, tão rápido quanto parece ser
esse banho frio.
=/

Adoro seus escritos.

;*