domingo, 26 de outubro de 2014

Derradeiro

Desde nosso último adeus
Verdadeiro
não escrevo mais poesia

o pó de cada dia
acumula em mim

todo verso, eu renego
pois a cada palavra escrita,
qualquer que seja,
vem um pouco de você

e

já não te quero mais aqui,
preso em minhas linhas,
escravo de nossos erros,
vãs filosofias,
e rimas de botequim

Insone, 
trago minhas certezas marcadas na pele,
a ferro e fogo. 
Apelo para o álcool
e entre um gole e outro trago,
em meio a pensamentos trôpegos,
afogo a seco a saudade
e, sem cerimônia,
derramo um copo em minha sanidade. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Antes de todas as cores (o bege)

Nossos encontros sempre pareceram coisa do destino
Ou do bom acaso
Desde a primeira vez em que o vi, quando você era bege –
E bege, você sabe, é a expressão cromática do tédio.

Mas você sempre desafiou o mundo.

Você usava uma bermuda daquela cor que chamam de cru
(mas não é cor de verdade),
All star brancos que pelo uso já eram qualquer outra tonalidade
e uma blusa lisa,
bege.
Seu cabelo loiro-palha completava uma palheta monocromática
com a pele que parecia nunca ver sol na vida.
Mas seus olhos, ah, seus olhos!,
Eram de uma cor que a astúcia humana nunca conseguiu imitar!
E o seu sorriso...
Ah, como é brega o que vou dizer,
Seu sorriso iluminava a noite –
Não daquele jeito artificial de comercial de pasta de dente,
Mas daquele outro que só a memória afetiva é capaz de reproduzir.

Não foi nesse dia em que te conheci,
No dia em que você era bege e dançava pela rua
ao som de uma música que calava seus ouvidos para a sem-gracice do mundo.

(Quando eu digo que dançava, não é modo de dizer.
Você dançava, literalmente, em frente ao meu caminho
E nem dançava lindo, mas dançava, e era tudo o que importava.)

Você dançava enquanto eu andava em linha reta
E nossos caminhos não se cruzaram.

Não.

Nós nos conhecemos outro dia,
em que eu sentei na sua cadeira no cinema
(que não tinha lugar marcado).
Não lembro qual era o filme, eu estava no Seu lugar,
que era o Meu lugar,
na cadeira do meio da tela,
no único lugar em que se deve ver um filme no cinema
(e só Nós Dois sabíamos disso).

Mas nos conhecemos depois,
Quando nossos corpos se cruzaram,
Criando outra música, outra dança e todas as cores que existem.
Até o bege.

Não.

Nós nos conhecemos antes,
bem antes,
Quando Deus criou o mundo,
ou foi a ciência?

Não importa: fomos nós.

sábado, 30 de novembro de 2013


Esta sou eu,
meu último farelo
                          ˙

Todo o resto você levou,
pouco a pouco
    .    .    .
a cada vez que partiu.

Por isso, aviso:
se quiser voltar,
se sequer pensar,
que (dessa vez) seja pra valer.

ou não haverá nada,

nem sombra, nem migalha,

pra onde retornar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Egotismo

Acho que só quero
alguém que goste de mim.
(para que, enfim, eu possa me dedicar a outra coisa)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dramaturgia

Meus dramas são só meus.
Sou autora,
diretora,
atriz,
plateia.

só eu
apenas.

Bravo!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ela

de alma lavada
olhos levados
semi-serrados
leva um sorriso
nos lábios
e um segredo
louvável
que quase escapa
num leve suspiro...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

As pequenas declarações são as mais sinceras

aquelas inesperadas,
feitas no dia-a-dia,
quase sem querer,
sem mais nem porquê.

aquelas nem tão explícitas
mas nem tão veladas
nem tão gestos
nem tão palavras


eu me declaro todo dia
mas ninguém ouve,
ninguém vê.

terça-feira, 5 de junho de 2012

sábado, 5 de maio de 2012

Suficiente

Dá impressão de ser pejorativo,
mas não se engane com impressões:
É a medida certa,
quando não falta, nem extrapola,
quando se encaixa
p e r f e i t a m e n t e.

sexta-feira, 30 de março de 2012

ƒø∂@-$€

Eu não me importo. Nem um pouco. Nadinha mesmo.
Faz o que quiser da sua vida, pode acertar o carro em uma árvore, se jogar do alto de um penhasco, mudar pra Austrália, comprar um trator e viajar pra outro estado.
Eu nem me importo, nem ligo.
Pode casar, ter filhos, abrir um restaurante, pintar a casa de branco, colocar uma cerca, plantar uma goiabeira no quintal e comprar um cachorro.
Não me interessa, nem um pouquinho.
Pode namorar e noivar, escrever poemas e fazer serenatas. A vida é sua, não é problema meu. Pode tatuar o nome dela na testa, fazer juras de amor eterno, comprar todas as rosas do mundo e mandar entregar. Na casa dela.
Eu não me importo. Nem um pouco. Nadinha mesmo.
Mas também não quero saber.

Eu nem ligo.

Já falei que você pode se jogar do penhasco?

sexta-feira, 16 de março de 2012

Idiota

Sabe quando você tem uma ideia que poderia ter sido boa?, que poderia até ter sido ótima, excelente, se você tivesse pensado ontem, ou talvez amanhã, mas não agora, agora é uma péssima ideia e no fundo você sabe, mas você vai e insiste, porque é teimosa, e aí quando tudo dá errado, o mínimo que você pode fazer é ter a decência de não se fazer de indignada... Que nem quando você decide pintar as unhas dos pés de vermelho quinze minutos antes de calçar os sapatos e sair. Ontem teria sido ótimo, mas agora... tudo o que você tem são dez unhas borradas.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Closure

Desculpa. Eu queria te amar, realmente queria... Até houve um tempo em que acho que amei, mas foi há tanto tempo, tantos anos se acumularam, tanta coisa aconteceu... Há séculos eu não sou mais aquela adolescente que te viu como uma criatura fantástica. Não, espera, não é bem assim. Você é ótimo e boa pessoa e tal, mas, naquela época, você era perfeito. Eu te via através dessas lentes cor de rosa e não havia defeitos, era você tudo o que eu queria, tudinho e até mais. Mas você embaçou minhas lentes, me fez tira-las, elas se empoeiraram, esquecidas num canto e, quando tentei recoloca-las, acho que quebraram. Não sei, ou elas perderam a cor, ou eu não gosto mais de rosa, ou a cor toda era minha e não delas... Sei lá. Agora vejo que você é ótimo sim, mas pra outra pessoa, não pra mim, nem de perto pra mim. Por mais que eu quisesse e, acredite, eu queria, eu queria querer, não temos nada a ver um com outro. Nadinha. Na verdade, acho que nunca tivemos, eu que me moldava a seu redor, acho que era feita de argila naquela época e ainda dava pra moldar, mas agora o barro criou forma, queimou, virou peça inteira, que não se encaixa na sua vida, nem como decoração. Meu Deus, como sou péssima em metáforas! Mas é isso, a ideia é essa: é melhor ficarmos assim, eu aqui, você aí, cada um no seu quadrado, com quase nada em comum. O que me consola é que você também não me ama, nem nunca amou. Você gostava de uma ideia e, sei lá, acho que eu nunca fui essa ideia, que, aliás, nem sei qual era! A gente se conhece faz o quê? Quinze anos? Quase isso? Mas de nada adianta tanto tempo, porque você não me conhece, você nunca nem se deu ao trabalho de tentar me conhecer. Já eu, quis saber tudo sobre você, e tentei, e descobri que você tem o umbigo do tamanho do mundo e não enxerga além dele. Eu sei que não é muito educado ou simpático chamar alguém de egoísta assim, na cara, mas é verdade, e talvez você precise de alguém pra te dizer isso, que você é egoísta e egocêntrico, porque você é, e não só em relação a mim. Você nunca se importou comigo de verdade e eu poderia ter ficado magoada, ressentida ou qualquer coisa, mas não, e foi aí que percebi que Eu também não te amo e que, quando achei que poderia tentar de novo e amar, não poderia estar mais errada... Eu achava que a gente podia escolher, que o amor era psicológico e bastava treinar a mente, mas descobri que, na verdade, é tudo coisa de pele, que nem frio: você sente ou não sente, não dá pra inventar. E é isso, acabou, adeus.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

todo dia, tudo sempre igual

Toda manhã eu me despeço
acordo me sentindo sufocar
vou-me embora pra Passárgada,
pra Ilha do Sol, pra Califórnia,
Marajó, Irajá ou qualquer outro lugar.

Toda tarde me despedaço,
dispersa, sozinha em minha liberdade,
independente, vazia, sem sonhos ou poesia,
sozinha,
sozinha.

Toda noite me desfaço,
me disfarço,
finjo que não foi nada, que não fugi,
que não estou voltando...
mas volto,
e sempre peço,
sem orgulho, sem passado:
nunca mais me deixe partir...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pout pourri . Medley

[ATENÇÃO: O texto seguinte nunca pretendeu ser sério, ou sequer bom. Foi uma brincadeira, em 01/05/2005. Quer dizer, era uma grande ironia, uma piada interna que, se eu explicar, perde a graça, mas hoje reli e achei interessante. E, já que não tenho nada de novo pra escrever...]
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"É desconsertante rever o grande amor" 

É noite, e ela reacende todas as lembranças. Estava com saudades de beber Eric Clapton com você, que é luz, raio, estrela e luar. Tinha me acostumado a vê-lo todos os dias, e agora é difícil acostumar-me com o "de vez em quando". Minhas madrugadas nunca mais foram as mesmas desde que você partiu. Nunca mais vi o dia nascer feliz, com o mundo inteiro acordando enquanto a gente ia dormir. 

Depois de tantas indas e vindas com aquela com quem já tinha me acostumado, e da repentina obsessão pela outra, com a qual eu já estava me acostumando, surge uma nova. Não sei se posso agüentar. Eu quero estar na sua pele, me embriagar com seu perfume. Tenho ciúme dos seus olhos em outra direção. 

Minha vida sem você não tem sabor, não tem cor. Nem flor, não há. Não há nada que ponha tudo em seu lugar, eu sei, mas queria tanto lhe trazer pra mim... Você está no meu corpo feito tatuagem, que é pra me dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem. Aonde quer que eu vá, levo você no olhar. 

O dia está amanhecendo... peço o contrário: ver o sol se pôr. Porque está amanhecendo se não vou beijar seus lábios quando você se for? 
Amanheceu. Olho pro céu e vejo como é bom ter as estrelas na escuridão. Espero você voltar, sem cansar. 

A verdade é que eu já conheci muita gente e até gostei de alguns garotos... Eu tenho mil amigos, mas você foi o meu melhor namorado. Depois de você, os outros são os outros. E só. Mas você me tem fácil demais e não parece capaz de cuidar do que possui. Você me diz o que fazer, mas não procura entender que eu faço só pra agradar. Porque de vez em quando você me esquece e some? Porque você me deixa tão solta? Porque você não cola em mim? E se eu me interessar por alguém? Estou me sentindo muito sozinha, meu amor, cadê você? Não tem ninguém ao meu lado... 

Então eu fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você. Não estou ao seu lado, mas posso sonhar... Se eu queria enlouquecer, essa é a minha chance, é o romance ideal. O quê que há com nós dois, amor? Me responda e depois me diz por onde você me prende, por onde foge e o que pretende de mim. Eu queria saber te prender como você faz comigo. E ver lá no escuro do mundo, onde está o que você quer, pra me transformar no que te agrada, no que me faça ver quais são as cores e as coisas pra te prender. 

Eu te vi com ela, num sonho ruim, acordei chorando e por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais. Teus pelos, teu rosto, teu gosto, tudo que não me deixa em paz... e eu estava em paz quando você chegou. 

Tenho feito tantas coisas pra enganar a solidão, mas eu sei que não tem jeito, é impossível te arrancar do coração! Porque é que você veio se não era pra ficar? Quem mandou você mandou deixar tanta saudade em seu lugar? E agora o que que eu faço se não existe igual a você? Eu não posso inventar outra paixão. Só no tempo e no espaço estou longe de você, porque sei que aqui dentro não vou te esquecer. Pode ser que eu esteja louca, me agarrando ao que passsou... Mas no fundo só um louco é que se entrega a um grande amor... 

E eu já conheço os passo dessa estrada e sei que não vai dar em nada. Eu já conheço as pedras do caminho e sei também que ali, sozinha, eu vou ficar tanto pior! Mas o que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto... e que, no entanto, volta sempre a enfeitiçar? E aqui fico eu, te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou tua.


Estou cansada, tão cansada... Mas não pra dizer que não acredito mais em você. Nem pra dizer que estou indo embora. Hoje eu quero sair só, eu tenho que ir pra rua... Talvez eu volte, um dia eu volto. Eu só eu preciso esquecê-lo, minha grande, minha pequena, minha imensa obsessão. 

Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo... De repente eu me vi assim, completamente sua. Vi a minha força amarrada no seu passo, sem você não há caminho, eu nem me acho. Eu vi um grande amor gritar dentro de mim como eu sonhei um dia. Quando o meu mundo era mais mundo e todo mundo admitia uma mudança muito estranha, mais pureza, carinho, calma e alegria no meu jeito de me dar. Quando a minha voz se fez mais forte, mais sentida. A poesia fez folia em minha vida, você veio me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa. Mas não tem revolta, não. Eu só quero que você se encontre. Saudade até que é bom... É melhor que caminhar vazio. A esperança é um dom que eu tenho em mim. Não tem desespero não, você me ensinou milhões de coisas. Tenho um sonho em minhas mãos, e amanhã será um novo dia. Certamente eu vou ser mais feliz! 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

The Sound of Silence

Falta de assunto,
acontece várias vezes.
Não porque realmente não tenhamos assunto algum,
mas porque há tantos possíveis,
que nenhum parece relevante.
E mais: ficamos tão preocupados em encontrar um assunto
para preencher um silêncio em uma conversa,
que acabamos não falando nada,
ou simplesmente falando sobre o tempo,
ou sobre o último capítulo da novela das oito.

Tiago e eu vivemos sem assunto ao telefone
e, estranhamente, nossas conversas normalmente são longas.
Dia desses, algo nos levou a falar sobre a chuva,
e ele, sabiamente, lembrou-se de um verso
do meu amado Mario Quintana:

"Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o céu! Lá faz sempre bom tempo..."

De fato, dificilmente conseguimos suportar
um longo período de silêncio diante de outrem.

Em uma madrugada qualquer
eu estava vendo tv quando começou
“Everybody Loves Raymond”, na Sony.
O Ray é casado com a Debra
há sei lá quantos anos.
Em um dia dos namorados,
eles vão para um restaurante
e não têm assunto algum.
Daí, ficam horas falando sobre
o pão e a manteiga.

Chegando em casa,
Debra começa a reclamar
da falta de assunto entre eles,
afinal, eles só conversavam sobre
família ou contavam antigas histórias
que já estavam cansados de ouvir
e de contar.

Não vou contar o episódio inteiro,
que nem foi tão brilhante assim.

Vou apenas tomar emprestado
algo que achei interessante
e sobre o qual me deu vontade de escrever.
Inclusive, vou logo avisando:
O assunto agora não é mais
“falta de assunto”,
e sim, “excesso de silêncio”.

Não é sobre experiências pessoais
com o silêncio,
mas sobre experiências coletivas
com ele.

Já há algum tempo
eu venho observando como as pessoas
respondem ao silêncio
quando têm outras pessoas à volta.

O silêncio incomoda.

Muitas vezes, quando duas ou mais pessoas estão assistindo a um filme
e, de repente, em uma cena,
faz-se silêncio,
começa-se a procurar alguma coisa,
não sei o quê.

É como se apenas a imagem não bastasse,
não fosse o suficiente para preencher aquele momento.
É preciso que haja algo mais:
um diálogo, uma música,
Sei lá!  Qualquer coisa!

Por vezes é neste silêncio que começam a comentar o filme
ou falar sobre algum outro assunto que, porventura, antes houvesse escapado.

John Cage, artista contemporâneo norte-americano,
criou muitas obras experimentais com a música,
inclusive, a famosa 4’33”, em 1953.

4’33” é uma música composta inteiramente por pausas,
ou melhor, por silêncios.
Em sua primeira apresentação pública,
o pianista que ia interpretar a peça
entrou no palco em silêncio,
abriu a tampa do piano,
e ficou parado, olhando para a partitura
e acompanhando as pausas descritas.

O silêncio só era interrompido
para que o pianista virasse as páginas das partituras,
ou para que ele fechasse e abrisse novamente
a tampa do piano,
indicando o início de um novo movimento
– ainda de pausas –
da música.

A princípio, o público ficou quieto,
tentando entender o que se passava.
Após um breve tempo, iniciaram-se os cochichos,
as conversas, e as reclamações. 
Quatro minutos e trinta e três segundos
foi o tempo máximo que o público conseguiu ouvir o silêncio sem reclamar.

No meu primeiro semestre na faculdade,
tive uma matéria de História da Arte
onde estudamos arte contemporânea. 
Na sala, nunca ninguém havia ouvido
falar de John Cage ou do seu experimentalismo. 
Então, o professor passou uma fita
com a apresentação da obra 4’33”. 

A reação dos estudantes foi a mesma do público. 
Primeiro, ficaram todos calados,
apreensivos com o início da música. 
Conforme o tempo foi se passando e não se ouviu nenhuma nota do piano,
começaram a surgir ruídos, risadas, comentários e reclamações.

Depois, o professor explicou a intenção de Cage,
que não compôs uma música apenas de silêncio,
mas pelos sons ambientes dentro do teatro. 

Assim, cada vez que 4’33” é apresentada,
é uma música diferente,
composta pelos silêncios e ruídos de cada platéia.

Ainda testando sua criação, Cage ouviu-a
dentro de uma sala onde som algum penetrava. 

Mesmo assim, ele não pode ouvir o silêncio absoluto:
ouvia os ruídos de seu coração pulsando e de sua respiração.

Não é possível que haja silêncio absoluto onde tem alguém.
Muito menos onde há duas ou mais pessoas.

Ainda assim, é com medo desse silêncio absoluto
que as pessoas não se sentem confortáveis em silêncio.

Minha mãe é uma dessas pessoas.
Ela não consegue estar na presença de outra
sem falar ou ouvir algo.

Sabrina também é assim.
Só que ela chega ao extremo de dizer
qualquer primeira bobagem que passa pela cabeça
a fim de quebrar o silêncio.

Muitas vezes, quando eu estou perto
de alguém que não conheço muito bem,
sinto-me nessa obrigação de quebrar o silêncio,
para não parecer que não estou gostando da companhia
ou que a situação está desconfortável.

Engraçado.

Acho que isso acontece a muitas pessoas,
que ficam procurando assunto
por estarem em uma situação desconfortável
sem querer mostrá-la.

No tal episódio que eu vi, eles falavam também
de um silêncio ao qual eu já me referi,
alguma vez, por aqui: o silêncio reconfortante,
aquele que se dá entre duas pessoas
que se conhecem há muito tempo e se amam.

Creio que seja uma situação cada vez mais rara,
onde você consegue andar ao lado de alguém sem falar nada,
e sentir-se confortável ainda assim.

Conseguir ficar ao lado de uma pessoa,
trocando longos olhares recíprocos,
sem dizer uma só palavra,
mas, mesmo assim,
conversar através do olhar.

“O silêncio não sustenta o peso de longos olhares recíprocos, exceto nos filmes de amor, e nem mesmo nos filmes de amor porque ali, quando cessa o diálogo, o diretor sempre coloca uma música.” (Chico Buarque, Benjamim)

Chico Buarque parece não acreditar na existência disso.
Eu, tento acreditar.
Mas não sei se, de fato, o silêncio pode
sustentar “o peso de longos olhares recíprocos”...

O que sei, de fato,
é que é possível sentir-se bem na presença de outrem
sem a necessidade de um ruído sequer.
Que, só de estar na presença do outro
– que pode até estar dormindo,
ou em outro cômodo,
ou conversando com outra pessoa... –,
só de sentir a presença do outro,
parece que a vida ganha mais significado,
e que o mundo se torna um lugar mais agradável...

Enfim, não falemos mais nada.
Fiquemos todos no mais profundo e terno silêncio,
onde só podemos ouvir as nossas respirações
 e o bater dos nossos corações
– e, sinceramente, o que de mais belo e simples poderíamos escutar?

(Acho que é de 2003)

domingo, 4 de setembro de 2011

saudade

sonhei com você

era tanta saudade
que vazava pelos olhos
e voava pelos ares

seu cabelo era grisalho,
não sei se do tempo
ou mero acaso de sonho

eu te via a distância,
e sorria
e chorava
e corria
e mergulhava em seus braços

assim,
em seu abraço,
com lágrimas ainda nos olhos,
mas um sorriso nos lábios,
acordei.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Gris

Anda pela ruas como quem procura algo...
Mas o quê?
dinheiro, sexo, um amigo, uma xícara de café?
É noite, mais uma noite, depois de mais um dia
   em que nada extraordinário aconteceu.
Mas talvez não reconhecesse o extraordinário se aparecesse em sua frente com um letreiro de neon na cabeça e lhe desse um sonoro tapa na cara.

Esta noite faz frio.
Mesmo o casaco, as luvas, as meias, o cachecol,
nada é suficiente para aquecer.
Talvez nem faça tanto frio assim, não sabe,
por dentro, sente nevar   .    .            .   .
 .      .                    .          . .                     .
.                  .    .        .                     .
.         . never          . .  .
  .                      .                            .                      .
          . 
aquele Adeus foi de quem nunca mais vai voltar, pode ouvir se repetindo em sua cabeça,
e é isso, talvez nunca mais volte mesmo, embora não tenha dito nada nesse sentido, mas é assim que o fez sentir, foi assim que fez nevar.

“Tenho que ir”, ele disse.
Uma luz se apagou dentro dela, que fechou os olhos e suspirou, como se derrotada, “Adeus”.

Talvez deva parar de andar, de procurar, e voltar. O que está procurando mesmo?
Lembra da história do avozinho que procurava os óculos que estavam o tempo todo na ponta do nariz, versinho do Quintana, ah, o Quintana dela!
E então se enche de saudades, saudades futuras, na verdade, e se aquilo foi mesmo um Adeus, assim, com letra maiúscula? Adeus de nunca mais, nunca, never, neve.

O sangue congela com esse último pensamento e para de andar. Não pode ser. Nunca? Nunquinha? É tempo demais, um disparate, um desperdício.
Não sabe o que fez pra merecer aquele Adeus, mas tem que desfazer, tem que se desculpar, do que quer que tenha sido, de qualquer coisa, sei lá!
Então corre, corre como não corria desde criança, corre voltando, em desespero.
A noite já virou madrugada, quase ninguém na rua, então pode correr com todo desalinho, despreparo, destempero.
O corpo se aquece, está quase chegando, falta pouco, respira, o ar foge, para um pouco, inspira, expira, inspira, expira, e quando chegar, o que vai dizer? E se for tarde demais? Não pode ser! inspira, volta a correr, pensa que devia parar de fumar, expira, corre mais rápido, começa a chover.
Mas, espera!, o chão não está molhado, nem o cabelo, nem as roupas, só os olhos. Ótimo, não bastassem os músculos doendo, a falta de ar, agora chove e mal consegue enxergar o caminho a sua frente!

De repente, a visão turva pelas lágrimas, quer dizer, chuva, não bem o impede de enxergar, não, repara bem, é o contrário: de onde vieram a chuva, a neve, o desespero? É óbvio! Como não viu antes?

Inspira, expira, suspira. Que alívio! Chegou, não é tarde demais, toca a campainha, espera, ouve passos se aproximando, ela abre a porta, os olhos vermelhos, esteve chorando, mas por quê? O que aconteceu? O que ele fez? Não pode ser Adeus! Não se passaram dois segundos desde que abriu a porta, ela franze a testa, como quem pergunta o que ele está fazendo ali, de repente, àquela hora. E ele não fala nada, não sabe o que dizer, teve uma epifania e resolveu voltar, nunca mais quer ouvir adeus, não sabe explicar, mas é isso, é o extraordinário com um letreiro de neon na cabeça lhe dando um tapa na cara. É isso, o que procurava a vida toda. Ela sorri timidamente, ele sente a neve derreter, o peito se aquece, parece até que as estrelas brilham mais e as cores se avivam, mas isso certamente é sua imaginação.

Aquele Adeus, não foi bem o que ele fez, foi mais o que deixou de fazer.

“Você não tinha que ir?”, ela pergunta, com uma ponta de desconfiança e outra de esperança.
Ele, que finalmente recuperou o fôlego, sorri. “Achei meus óculos”.




Da Felicidade
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!
(Mario Quintana)

sábado, 23 de abril de 2011

Distração

É você minha inspiração,
meu refrão,
meu amigo.
Meu abrigo nos dias de chuva
e nos de sol, meu sorriso

quinta-feira, 7 de abril de 2011

shush!

é a pele que faz as introduções
deixa os corpos fazerem sua dança,
acertarem seus passos

deixa os cheiros se entrelaçarem,
os sons se confundirem,
os gostos se (a)provarem

cale-se,
nem uma palavra é suficiente
ou necessária

então não pense,
não fale,
deixe apenas as almas conversarem

segunda-feira, 7 de março de 2011

Reencontro

Uma história em três atos


(…) Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca”


 Ato 3

- Esperando alguém?
- Você. Tinha certeza de que ia lhe encontrar aqui, então vim.
- As estrelas disseram?
- Por aí. Esperando alguém?
- Na verdade não. Estava de passagem, vi você, vim até aqui. Não podia decepcionar as estrelas.
- E o advogado?
- Você tinha razão. Namoramos por dois meses e eu entendi que não tinha futuro. Era sempre um papo muito chato.
- Esses advogados...
- Agora estou solteira. Livre, leve e solta.
- Como havia de ser!
- E é. E a menina pouco brilhante? Virou ex mesmo?
- Virou. Ela me trocou por um estudante de medicina. Acredita?!
- Nossa, será que era Ele!?
- Não sei. Mas foi bom, pelo menos eu não precisei me sentir culpado por terminar com Ela.
- Aposto que você até se fez de muito magoado para Ela se sentir culpada.
- Ah, só um pouco...
- Vocês, homens, são sempre assim: detestam terminar namoros. Preferem que as mulheres terminem para não precisarem sentir culpa.
- Não é bem assim. Foi para o bem dela. Tenho certeza que ela ficou muito mais feliz acreditando que eu queria continuar o namoro do que se eu tivesse terminado.
- O estranho é que esse raciocínio tem bastante lógica. E até um quê de romantismo.
- Claro que tem, eu sou romântico, já disse. Falando em romances, será que chegou a nossa hora?
- Pergunte às estrelas.
- Elas não sabem. São só estrelas, não bolas de cristal. Nem relógio.
- Você tinha razão, você é estranho.
- Eu avisei.
- Só num terceiro encontro para perceber.
- É meu charme. O maior de todos.
- Conceitos estranhos...
- Ah, disso você já sabia! Você deve mesmo ser minha lagosta.
- Você vê friends! As chances de você ser minha lagosta aumentaram exponencialmente.
- Nossos encontros e desencontros não podem ser por mero acaso.
- Isso já tá virando filme.
- Dirigidos por Sofia Coppola. É, acho que temos futuro. Ela pode até dirigir, mas nós fazemos o roteiro.
- Então vamos logo combinar: nada de filme de terror. Suspense, só de vez em quando.
- Comédia romântica ou filme cabeça?
- Sejamos cult, enquanto pudermos. Mas não muito, pra não cansar.
- Antes de mais nada, eu devo confessar uma coisa.
- Então vamos começar com confissões?! Espero que não vire filme religioso... ou pior, policial. Não matou ninguém, né? Seria muito estranho ter que ligar pro ex-namorado...
- Estranho, desagradável, tanto faz. Mas não matei ninguém, pelo menos que eu saiba. E também não é nada que me obrigue a rezar um rosário para me redimir.
- Você não tem mesmo a menor cara de quem reza rosários...
- Nem sei no que consiste, na verdade. Mas para de me enrolar e deixa-me confessar: desde que nos conhecemos, sempre marco meus encontros aqui.
- Eu sou mesmo irresistível, é o meu charme!
- E pretensiosa...
- Aprendi com você!
- Sorte que em você funciona.
- Bem, já que estamos confessando...
- Acho que mais cedo ou mais tarde vamos ter que descobrir como se reza um rosário!
- (risos) Eu também. Também acho e também marquei muitos encontros por aqui na esperança de rever você.
- É, teria sido mais fácil se você tivesse me dado o seu telefone…
- Nem sempre o melhor caminho é o mais fácil, né!
- Dificilmente é o mais divertido também.
- Então vem, vamos nos divertir.
- Fácil assim?
- Prefere esperar outro encontro casual?
- Claro! não sei começar nada sem meu charme de 15 minutos atrasado.
- Eu não abusaria da sorte…
- Peraí.

Alex sai. Marcela fica olhando, sem entender nada, até ele virar a esquina e sumir de seu campo de visão. Ela pensa que talvez ele tenha ido telefonar pra desmarcar o encontro que estava esperando, então espera. E espera mais um pouco. Depois de 5 minutos, começa a pensar que ele deve ter ido ao banheiro. Ou ele tinha marcado vários encontros com várias pessoas. Não… será? Não!… Depois de 10 minutos, já irritada com aquela espera toda, ela começa a reparar que os sapatos que está calçando aperta  os dedões dos pés, o que a deixa ainda mais irritada! De repente, ela é abraçada pelas costas, mas nem tem muito tempo de se assustar e sente um beijo em seu rosto, muito carinhoso, beijo de gente culpada.

- Estou há quinze minutos te esperando, aff! Esse seu charme não funcionou comigo. - Ela fala olhando pra ele, franzindo a testa e cruzando os braços. Faz até um bico indignado pra completar a pose.
- Eu não acabei ainda. - E, de surpresa, dá um beijo nela, na boca dessa vez, né!, desmanchando aquele biquinho, e bom, hummm.
- Hummm... então é esse o seu charme...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Desencontro

Uma história em três atos

“(… )Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar (…)

Ato 2

- Você marca todos os seus encontros aqui? – Ela o surpreende com um sorriso no rosto.
- Só quando você marca os seus.
- Como você sabe que vou encontrar alguém?
- Elementar. Eu sou sua versão masculina, lembra?
- Somos almas gêmeas.
- Muito provavelmente. Ele tá atrasado?
- Não, ainda não. Dessa vez eu cheguei na hora. Ele tem quinze minutos de tolerância.
- É o médico?
- Não, é outro. O médico virou ex mesmo.
- Namorado?
- Não exatamente. Pelo menos não por enquanto e não com o rótulo.
- Imitadora.
- E você, esperando a futura namorada em potencial, pouco brilhante?
- Não é mais futura. Agora é atual. Pelo menos por enquanto.
- Já pensando em terminar?
- Nós nos desencontramos muito, não está funcionando. Pelo menos eu já tenho o telefone dela.
- E já ligou?
- Não. Talvez seja um agravante para os nossos problemas de comunicação. Ela vive reclamando que eu nunca ligo.
- Mas esse é o seu charme!
- Pois é! Só você me entende…
- E só porque eu sou sua versão feminina. Caso contrário, também não entenderia.
- Ainda bem que a vida não é feita de casos-contrários. Este seu não-namorado vai virar namorado?
- Não sei. Ele até tem potencial, mas vamos ver. Está em fase de testes.
- Não vai dar certo.
- Não rogue praga!
- Não é praga, é fato. Esse não namoro está fadado ao fracasso. Tá escrito nas estrelas.
- Você tem estrelas cultas!
- E bregas, eu sei. Mas sábias.
- E porque elas dizem que não vai dar certo?
- Por que ele não é sua alma gêmea. Nós já sabemos disso.
- Muito platônico você.
- Eu sei, não posso evitar. Sou um romântico incurável.
- Seu novo charme.
- Aquele nosso encontro… Eu não pude vir.
- Não importa, eu também não pude. De qualquer forma, nos encontramos. E sem marcar.
- Encarando de outra forma, nós dois viemos. Com algumas semanas de atraso.
- Pontuais em nossos atrasos. Definitivamente almas gêmeas.
- Desencontradas, mas gêmeas.
- Ela está muito atrasada?
- Na verdade, nem um pouco. Eu que cheguei cedo.
- Nossa, que avanço, você chegou cedo!
- Eu estava por perto e sem nada para fazer. Cheguei aqui poucos minutos antes de você.
- Ainda bem que você não me deixou esperando!
- Eu nunca faria isso, você poderia ficar traumatizada.
- Ficaria mesmo, sem dúvidas.
- Esse agora também quer ser médico?
- Não. Advogado.
- Advogado?! Tá vendo só, que futuro isso pode ter?
- Ah, advogados não são tão ruins…
- Você diz isso porque ainda não é seu namorado. Se fosse, você pensaria diferente.
- Talvez. Só vou saber quando for.
- Não perca seu tempo, largue logo dele. Não vai dar certo, você sempre vai pensar em mim.
- Pretensioso, você!
- Realista, acima de tudo.
- Já que está escrito nas estrelas, não precisamos nos preocupar.
- Mas podíamos nos poupar um bom tempo.
- "Não se afobe não que nada é pra já..." Quem sabe um dia a gente se encontra, livres e desimpedidos. Sem futuros namorados em potencial ou atuais futuros ex.
- Falando nisso, ela está vindo. Até a próxima vez, Marcela.
- Até lá, Alex.
- Preste mais atenção às estrelas.
- Elas são bregas, mas sábias, né?!
- Não duvide.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Encontro

Uma história em três atos


Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz (…)”

Ato 1

- Que horas são?
- Já são sete e trinta e dois. Maldito!
- Desculpa!
- Não, não é com você…
- Ele tá atrasado?
- Como você sabe que é Ele?
- Quem mais poderia ser?
- Verdade… E está. Marcou comigo às sete em ponto. Estou aqui desde dez para as sete e nada do infeliz.
- Namorado?
- Não sei. Costumava ser, mas temos brigado e nos desencontrado tanto, que marcamos pra conversar. Hoje, trinta e dois minutos atrás. Estou criando raízes aqui e nada dele. Eu mereço. É vingança, tenho certeza… Não devia tê-lo feito me esperar tantas vezes. Aqui se faz, aqui se paga.
- É o que dizem.
- Não sei se continuo esperando ou se aceito logo que levei um bolo e vou-me embora.
- Espere um pouco mais, faça-me companhia.
- Ela está atrasada?
- Como você sabe que é Ela?
- E quem mais haveria de ser?
- É, você tem razão. Eu sou a sua versão masculina.
- Marcaram que horas?
- Sete e dez. Eu cheguei atrasado. Saí de casa às sete e dez.
- Ela é pontual?
- Costuma ser.
- Namorada?
- Não exatamente. Pelo menos não por enquanto, não com o rótulo.
- Entendo... Você sempre se atrasa?
- Normalmente. Eu sempre acho que dá tempo de chegar em qualquer lugar em dois minutos. Nunca conto o tempo que demora pra pegar o carro, estacionar, chegar ao lugar marcado… Se bem que hoje eu nem me atrasei muito. Dez minutos não é praticamente nada.
- É um tempo razoável. Ele sempre se atrasa também. Mas nunca mais de dez minutos, é a primeira vez. Só porque eu cheguei antes! Vai ver Ela previu seu atraso e resolveu se atrasar mais quinze minutos, pra fazer um charme.
- Ela não é tão esperta assim.
- Coitada da sua futura namorada. Você não é nada romântico.
- Romântico eu até sou, mas realista, acima de tudo.
- Ela deve estar com Ele.
- E Murphy. Todos juntos. Isso sim é romântico. Vocês namoram há muito tempo?
- Bastante. Seis meses, mais ou menos. E em seis meses ele nunca se atrasou mais de dez minutos. Só hoje, e só porque eu cheguei cedo. Ninguém merece.
- É pra você aprender a nunca chegar na hora, muito menos antes.
- Lição aprendida. Se bem que você chegou atrasado e não adiantou nada.
- Eu tenho que aprender a chegar na hora. Ela já deve ter vindo aqui. Não me encontrou, não quis esperar e foi-se embora.
- Será? Nada charmosa.
- Nem esperta, como eu disse.
- Sete e quarenta e três. Acho que eu já esperei demais.
- Você já tentou ligar pra Ele?
- Tentei. Fora da área de cobertura ou desligado. Como sempre. Não sei pra quê Ele tem um telefone.
- Pra dar “fora da área de cobertura ou desligado”. É um charme.
- Seu conceito de charme é meio esquisito.
- Todos os meus conceitos são meio esquisitos. Assim como eu.
- Você não me parece esquisito.
- Você é que me conhece pouco.
- Fato. Dez minutos não é tempo suficiente pra se conhecer alguém.
- Só é tempo suficiente para se atrasar.
- E pra esperar. Devia existir um estatuto do atraso e da espera. Tempo máximo pra alguém se atrasar: quinze minutos. Tempo máximo pra se esperar por alguém: vinte. O mundo seria um lugar mais tranqüilo.
- E teria menos gente na rua.
- Com certeza. Você já tentou ligar pra Ela?
- Eu nunca ligo pra Ela. Esse é o meu charme. Ela é quem me liga.
- Então Ela deve estar se vingando, fazendo você esperar tempo o suficiente pra cansar e ligar.
- Não vai funcionar. Eu não tenho o telefone dela.
- Você não tem o telefone da sua futura namorada em potencial?
- Pra quê se eu não ligo?
- Exatamente para eventualidades como essa. Se existe a possibilidade de vocês namorarem, acho que você devia pelo menos ter o número. Ainda que seja para não ligar.
- Tudo bem, você venceu. Assim que eu a encontrar, anoto o telefone.
- Muito bem. Dê mais valor a Ela. O meu namorado, por exemplo, teria maiores chances de continuar sendo meu namorado se telefonasse pra dizer que ia se atrasar.
- Você está mesmo pensando em terminar?
- Cada vez mais sério. Eu ouço mais a gravação de “fora da área de cobertura ou desligado” do que a voz dele desde que começou a faculdade. Maldita faculdade.
- Ele faz o que?
- Medicina. Quer salvar o mundo. E me deixar esperando.
- Ele deve estar treinando. Todo médico faz questão de nos deixar esperando, nunca atendem na hora marcada.
- Ótimo. Agora virei paciente estagiária do meu futuro ex-namorado. E a sua futura namorada está aprendendo com Ele.
- Ela não é tão esperta pra fazer medicina. Nem faculdade faz.
- Você fala dela como se ela fosse uma besta quadrada.
- Não é quadrada. Pelo menos por enquanto. Mas há uma grande chance de se tornar redonda daqui a uns vinte anos.
- Nossa, que amor!
- Pra você ver, Ela é pouco brilhante, mas mesmo assim eu gosto.
- Enfim romântico.
- Viu?! Estou aprendendo. Vou até anotar o telefone dela!
- Parabéns! Quem sabe um dia você liga, né?
- É, quem sabe!
- Sete e cinqüenta e três. Ainda bem que encontrei você. O tempo está passando mais rápido.
- O tempo é uma criatura interessante. Um minuto sempre tem mais de sessenta segundos quando você não está fazendo nada.
- E menos quando você está.
- De qualquer forma, quase quarenta minutos é demais para um atraso, né? Mesmo que eu só esteja aqui há vinte e cinco, e que os últimos vinte e poucos tenham voado.
- Verdade. Acho que já podemos ir embora sem sentir culpa por não termos esperado.
- Seria um desperdício.
- Ir embora?
- Esperar tanto tempo para nada.
- Quer tomar um café então?
- Falou a palavra mágica!
- Ótimo, estou morrendo por um café.
- Alex, muito prazer.
- Marcela.

Os dois vão tomar um café. Ela liga para o Alex e conta que a mãe começou a passar mal e por isso não pôde ir. Pede que ele vá até sua casa para se verem. Marcela liga de novo para Ele e consegue completar a ligação. Ele diz que está esperando há dez minutos e ela não aparece. Marcela descobre que tinham marcado às oito, não às sete. Marcela e Alex se despedem. Marcela vai ao encontro dele e Alex para a casa dela.

- Foi muito bom esperar e tomar um café com você.
- Igualmente. Quando decidir confundir o horário e ficar uma hora esperando à toa, pode me chamar.
- Eu já tenho uma qualidade para ser sua futura namorada em potencial, tá vendo?! Também não sou muito brilhante…
- Você tem outras qualidades para ser minha futura namorada em potencial. Falta de brilhantismo não é uma delas.
- Bom saber. Ainda tenho potencial.
- Quando lhe vejo de novo?
- Que tal daqui a um mês, no mesmo lugar em que nos conhecemos. Às sete e meia?
- Sem atrasos?
- Com quinze minutos de tolerância, nem mais nem menos.
- Você vai me dar seu telefone pro caso de eu me atrasar mais?
- Pra quê, você não vai ligar. É seu charme.
- Verdade. Então nos vemos mês que vem.
- Até lá. Bom começo de namoro pra você.
- E bom término pra você.