quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Na primeira vez que conheci Tiago, eu devia ter uns 17 anos e estava começando a faculdade em outra cidade, quando um dia cheguei e casa e recebi um pedido de autorização no ICQ. ICQ, pra quem não é dessa época, era tipo o Messenger, ou uma versão só de computador do whatsapp, mas um cadinho menos invasiva: enquanto no whatsapp qualquer um que tenha seu número de telefone pode mandar mensagem, no ICQ a pessoa tinha que pedir pra ser seu amigo, assim como pedem no facebook. Diferentemente do facebook, no entanto, ICQ não tinha foto nem perfil, então, para você saber quem era a pessoa e decidir se aceitava ou não, esse pedido vinha com uma mensagem. Se quiser mais detalhes, pergunta pro google, porque eu vou voltar pra história.
Eu devia ter uns 17 anos e estava começando a faculdade em outra cidade, quando um dia cheguei e casa e recebi um pedido de autorização no ICQ dizendo “Sou Tiago, amigo do Victor. Sou novo no ICQ e ele me passou uns amigos. Sou pobre, mas sou limpinho”. Ou foi isso ou foi bem parecido com isso, mas o importante é que eu me comovi (e ri) e aceitei a amizade. Como estou numa “vibe” explicativa hoje, Victor é meu amigo e fazia faculdade comigo. Tiago eu já tinha visto de passagem, mas à distância. Na época pareceu meio estranho um desconhecido querendo bater papo, mas, pensando agora, já aconteceram coisas bem piores. Não me lembro se conversei com ele pelo ICQ naquele dia ou em outro, mas foi ali, no “Sou pobre, mas sou limpinho”, em algum dia dos meus 17 anos, que Tiago virou meu amigo da internet.
Cansada de ir e vir pra faculdade, no segundo período eu acabei convencendo meus pais que dividir apartamento com outros estudantes em Niterói era uma boa ideia. 
E foi. 
Logo depois que nos mudamos (eu, duas amigas de longa data e duas das minhas calouras), resolvemos fazer uma “festinha” à tarde no apartamento, pra qual convidamos uma meia dúzia de pessoas (provavelmente só três). 
Naquela época, o celular era um tijolo, a internet era discada e o computador era um monstrengo. Tinha que ser bem rico pra ter um notebook. 
Não éramos. 
Não tínhamos telefone, internet, computador, nem TV. 
Na verdade, também não tínhamos mesa, nem cadeiras, nem muito dinheiro. 
Na verdade, verdadeira, só me lembro de um tapete, um pufe e um rádio que tocava CD na sala. 
Eu passava a semana lá, quando tinha aula, e voltava pra casa dos meus pais (com mesa, cadeiras, sofá, telefone, internet e computador) nos fins de semana e feriados. Se você não viveu aquela época, talvez não acompanhe sem mais esclarecimento, então vou ajudar: ICQ e email só funcionavam no computador e com internet, que só funcionava com telefone, de preferência nos dias de semana depois de um determinado horário e aos domingos (se não me engano)(porque era caríssimo, mas nesses dias e horários, pagava-se um pulso de telefone só)(não que eu pagasse a conta no final, mas quem pagava, reclamava). Dito isto, em um domingo, antes de eu ir pro apartamento, no dia da “festinha”, resolvi convidar Tiago, por mensagem de ICQ, já que, pra ajudar, ele nem tinha celular pra um SMS. Ele não estava online, então deixei a mensagem lá. Com sorte ele veria.
A meia dúzia de amigos chegou e foi embora, mas nós, que morávamos lá, continuamos sentadas no pufe, no tapete, ouvindo música e conversando (ah, e tomando gelatina com vodca, porque colágeno faz bem). Já era quase meia noite quando o interfone tocou assustando todo mundo.
Era Tiago, meu amigo da internet.
E essa foi a segunda vez que conheci Tiago.
Dessa noite, eu lembro que ele lavou louça (assim como fez centenas de outras vezes quando foi me visitar) e que estava com fome e não tinha comida lá em casa. Então saímos, de madrugada, pra comer alguma coisa. Lembro que passamos horas andando até o único restaurante que ficava aberto até muito tarde, ficamos horas lá e mais outras horas voltando. 
Tá bom, talvez não tenham sido tantas horas assim, porque o Ingá é do lado de Icaraí. 
Mas foram. 
Horas andando e conversando sobre os assuntos mais importantes do universo, como, por exemplo, como os meses têm nomes errados (setembro devia ser o mês sete, outubro o oito, novembro o nove e dezembro, o dez), ou como a novela que ele achava que eram três (a dos drogados, a dos muçulmanos e a dos clones), era só uma bem ruim mesmo. 
Lembro que ele me levou de volta pra casa quando já estava amanhecendo, quando uma das minhas amigas estava acordando pra ir caminhar na praia e me olhou com cara de ressaca (tinha sido muita gelatina, muito colágeno) estranhando eu estar chegado e casa àquela hora, com aquele desconhecido.
Mas aí já não era mais desconhecido, porque naquele dia (que, reza a lenda, foi um 22 de novembro), Tiago virou meu amigo.
De lá pra cá, foram-se anos, quase vinte (que horror), de muitas histórias absurdas (que eu não vou contar porque já está tarde) em que meu amigo da internet virou meu melhor amigo, meu interlocutor favorito, aquele que se eu morrer primeiro, morre depois.
Ti, feliz aniversário. Te amo.

domingo, 26 de outubro de 2014

Derradeiro

Desde nosso último adeus
Verdadeiro
não escrevo mais poesia

o pó de cada dia
acumula em mim

todo verso, eu renego
pois a cada palavra escrita,
qualquer que seja,
vem um pouco de você

e

já não te quero mais aqui,
preso em minhas linhas,
escravo de nossos erros,
vãs filosofias,
e rimas de botequim

Insone, 
trago minhas certezas marcadas na pele,
a ferro e fogo. 
Apelo para o álcool
e entre um gole e outro trago,
em meio a pensamentos trôpegos,
afogo a seco a saudade
e, sem cerimônia,
derramo um copo em minha sanidade. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Antes de todas as cores (o bege)

Nossos encontros sempre pareceram coisa do destino
Ou do bom acaso
Desde a primeira vez em que o vi, quando você era bege –
E bege, você sabe, é a expressão cromática do tédio.

Mas você sempre desafiou o mundo.

Você usava uma bermuda daquela cor que chamam de cru
(mas não é cor de verdade),
All star brancos que pelo uso já eram qualquer outra tonalidade
e uma blusa lisa,
bege.
Seu cabelo loiro-palha completava uma palheta monocromática
com a pele que parecia nunca ver sol na vida.
Mas seus olhos, ah, seus olhos!,
Eram de uma cor que a astúcia humana nunca conseguiu imitar!
E o seu sorriso...
Ah, como é brega o que vou dizer,
Seu sorriso iluminava a noite –
Não daquele jeito artificial de comercial de pasta de dente,
Mas daquele outro que só a memória afetiva é capaz de reproduzir.

Não foi nesse dia em que te conheci,
No dia em que você era bege e dançava pela rua
ao som de uma música que calava seus ouvidos para a sem-gracice do mundo.

(Quando eu digo que dançava, não é modo de dizer.
Você dançava, literalmente, em frente ao meu caminho
E nem dançava lindo, mas dançava, e era tudo o que importava.)

Você dançava enquanto eu andava em linha reta
E nossos caminhos não se cruzaram.

Não.

Nós nos conhecemos outro dia,
em que eu sentei na sua cadeira no cinema
(que não tinha lugar marcado).
Não lembro qual era o filme, eu estava no Seu lugar,
que era o Meu lugar,
na cadeira do meio da tela,
no único lugar em que se deve ver um filme no cinema
(e só Nós Dois sabíamos disso).

Mas nos conhecemos depois,
Quando nossos corpos se cruzaram,
Criando outra música, outra dança e todas as cores que existem.
Até o bege.

Não.

Nós nos conhecemos antes,
bem antes,
Quando Deus criou o mundo,
ou foi a ciência?

Não importa: fomos nós.

sábado, 30 de novembro de 2013

•


Esta sou eu,
meu último farelo
                          ˙

Todo o resto você levou,
pouco a pouco
    .    .    .
a cada vez que partiu.

Por isso, aviso:
se quiser voltar,
se sequer pensar,
que (dessa vez) seja pra valer.

ou não haverá nada,

nem sombra, nem migalha,

pra onde retornar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Egotismo

Acho que só quero
alguém que goste de mim.
(para que, enfim, eu possa me dedicar a outra coisa)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ela

de alma lavada
olhos levados
semi-serrados
leva um sorriso
nos lábios
e um segredo
louvável
que quase escapa
num leve suspiro...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

As pequenas declarações são as mais sinceras

aquelas inesperadas,
feitas no dia-a-dia,
quase sem querer,
sem mais nem porquê.

aquelas nem tão explícitas
mas nem tão veladas
nem tão gestos
nem tão palavras


eu me declaro todo dia
mas ninguém ouve,
ninguém vê.

sábado, 5 de maio de 2012

Suficiente

Dá impressão de ser pejorativo,
mas não se engane com impressões:
É a medida certa,
quando não falta, nem extrapola,
quando se encaixa
p e r f e i t a m e n t e.

sexta-feira, 30 de março de 2012

ƒø∂@-$€

Eu não me importo. Nem um pouco. Nadinha mesmo.
Faz o que quiser da sua vida, pode acertar o carro em uma árvore, se jogar do alto de um penhasco, mudar pra Austrália, comprar um trator e viajar pra outro estado.
Eu nem me importo, nem ligo.
Pode casar, ter filhos, abrir um restaurante, pintar a casa de branco, colocar uma cerca, plantar uma goiabeira no quintal e comprar um cachorro.
Não me interessa, nem um pouquinho.
Pode namorar e noivar, escrever poemas e fazer serenatas. A vida é sua, não é problema meu. Pode tatuar o nome dela na testa, fazer juras de amor eterno, comprar todas as rosas do mundo e mandar entregar. Na casa dela.
Eu não me importo. Nem um pouco. Nadinha mesmo.
Mas também não quero saber.

Eu nem ligo.

Já falei que você pode se jogar do penhasco?

sexta-feira, 16 de março de 2012

Idiota

Sabe quando você tem uma ideia que poderia ter sido boa?, que poderia até ter sido ótima, excelente, se você tivesse pensado ontem, ou talvez amanhã, mas não agora, agora é uma péssima ideia e no fundo você sabe, mas você vai e insiste, porque é teimosa, e aí quando tudo dá errado, o mínimo que você pode fazer é ter a decência de não se fazer de indignada... Que nem quando você decide pintar as unhas dos pés de vermelho quinze minutos antes de calçar os sapatos e sair. Ontem teria sido ótimo, mas agora... tudo o que você tem são dez unhas borradas.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Closure

Desculpa. Eu queria te amar, realmente queria... Até houve um tempo em que acho que amei, mas foi há tanto tempo, tantos anos se acumularam, tanta coisa aconteceu... Há séculos eu não sou mais aquela adolescente que te viu como uma criatura fantástica. Não, espera, não é bem assim. Você é ótimo e boa pessoa e tal, mas, naquela época, você era perfeito. Eu te via através dessas lentes cor de rosa e não havia defeitos, era você tudo o que eu queria, tudinho e até mais. Mas você embaçou minhas lentes, me fez tira-las, elas se empoeiraram, esquecidas num canto e, quando tentei recoloca-las, acho que quebraram. Não sei, ou elas perderam a cor, ou eu não gosto mais de rosa, ou a cor toda era minha e não delas... Sei lá. Agora vejo que você é ótimo sim, mas pra outra pessoa, não pra mim, nem de perto pra mim. Por mais que eu quisesse e, acredite, eu queria, eu queria querer, não temos nada a ver um com outro. Nadinha. Na verdade, acho que nunca tivemos, eu que me moldava a seu redor, acho que era feita de argila naquela época e ainda dava pra moldar, mas agora o barro criou forma, queimou, virou peça inteira, que não se encaixa na sua vida, nem como decoração. Meu Deus, como sou péssima em metáforas! Mas é isso, a ideia é essa: é melhor ficarmos assim, eu aqui, você aí, cada um no seu quadrado, com quase nada em comum. O que me consola é que você também não me ama, nem nunca amou. Você gostava de uma ideia e, sei lá, acho que eu nunca fui essa ideia, que, aliás, nem sei qual era! A gente se conhece faz o quê? Quinze anos? Quase isso? Mas de nada adianta tanto tempo, porque você não me conhece, você nunca nem se deu ao trabalho de tentar me conhecer. Já eu, quis saber tudo sobre você, e tentei, e descobri que você tem o umbigo do tamanho do mundo e não enxerga além dele. Eu sei que não é muito educado ou simpático chamar alguém de egoísta assim, na cara, mas é verdade, e talvez você precise de alguém pra te dizer isso, que você é egoísta e egocêntrico, porque você é, e não só em relação a mim. Você nunca se importou comigo de verdade e eu poderia ter ficado magoada, ressentida ou qualquer coisa, mas não, e foi aí que percebi que Eu também não te amo e que, quando achei que poderia tentar de novo e amar, não poderia estar mais errada... Eu achava que a gente podia escolher, que o amor era psicológico e bastava treinar a mente, mas descobri que, na verdade, é tudo coisa de pele, que nem frio: você sente ou não sente, não dá pra inventar. E é isso, acabou, adeus.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

todo dia, tudo sempre igual

Toda manhã eu me despeço
acordo me sentindo sufocar
vou-me embora pra Passárgada,
pra Ilha do Sol, pra Califórnia,
Marajó, Irajá ou qualquer outro lugar.

Toda tarde me despedaço,
dispersa, sozinha em minha liberdade,
independente, vazia, sem sonhos ou poesia,
sozinha,
sozinha.

Toda noite me desfaço,
me disfarço,
finjo que não foi nada, que não fugi,
que não estou voltando...
mas volto,
e sempre peço,
sem orgulho, sem passado:
nunca mais me deixe partir...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pout pourri . Medley

[ATENÇÃO: O texto seguinte nunca pretendeu ser sério, ou sequer bom. Foi uma brincadeira, em 01/05/2005. Quer dizer, era uma grande ironia, uma piada interna que, se eu explicar, perde a graça, mas hoje reli e achei interessante. E, já que não tenho nada de novo pra escrever...]
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"É desconsertante rever o grande amor" 

É noite, e ela reacende todas as lembranças. Estava com saudades de beber Eric Clapton com você, que é luz, raio, estrela e luar. Tinha me acostumado a vê-lo todos os dias, e agora é difícil acostumar-me com o "de vez em quando". Minhas madrugadas nunca mais foram as mesmas desde que você partiu. Nunca mais vi o dia nascer feliz, com o mundo inteiro acordando enquanto a gente ia dormir. 

Depois de tantas indas e vindas com aquela com quem já tinha me acostumado, e da repentina obsessão pela outra, com a qual eu já estava me acostumando, surge uma nova. Não sei se posso agüentar. Eu quero estar na sua pele, me embriagar com seu perfume. Tenho ciúme dos seus olhos em outra direção. 

Minha vida sem você não tem sabor, não tem cor. Nem flor, não há. Não há nada que ponha tudo em seu lugar, eu sei, mas queria tanto lhe trazer pra mim... Você está no meu corpo feito tatuagem, que é pra me dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem. Aonde quer que eu vá, levo você no olhar. 

O dia está amanhecendo... peço o contrário: ver o sol se pôr. Porque está amanhecendo se não vou beijar seus lábios quando você se for? 
Amanheceu. Olho pro céu e vejo como é bom ter as estrelas na escuridão. Espero você voltar, sem cansar. 

A verdade é que eu já conheci muita gente e até gostei de alguns garotos... Eu tenho mil amigos, mas você foi o meu melhor namorado. Depois de você, os outros são os outros. E só. Mas você me tem fácil demais e não parece capaz de cuidar do que possui. Você me diz o que fazer, mas não procura entender que eu faço só pra agradar. Porque de vez em quando você me esquece e some? Porque você me deixa tão solta? Porque você não cola em mim? E se eu me interessar por alguém? Estou me sentindo muito sozinha, meu amor, cadê você? Não tem ninguém ao meu lado... 

Então eu fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você. Não estou ao seu lado, mas posso sonhar... Se eu queria enlouquecer, essa é a minha chance, é o romance ideal. O quê que há com nós dois, amor? Me responda e depois me diz por onde você me prende, por onde foge e o que pretende de mim. Eu queria saber te prender como você faz comigo. E ver lá no escuro do mundo, onde está o que você quer, pra me transformar no que te agrada, no que me faça ver quais são as cores e as coisas pra te prender. 

Eu te vi com ela, num sonho ruim, acordei chorando e por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais. Teus pelos, teu rosto, teu gosto, tudo que não me deixa em paz... e eu estava em paz quando você chegou. 

Tenho feito tantas coisas pra enganar a solidão, mas eu sei que não tem jeito, é impossível te arrancar do coração! Porque é que você veio se não era pra ficar? Quem mandou você mandou deixar tanta saudade em seu lugar? E agora o que que eu faço se não existe igual a você? Eu não posso inventar outra paixão. Só no tempo e no espaço estou longe de você, porque sei que aqui dentro não vou te esquecer. Pode ser que eu esteja louca, me agarrando ao que passsou... Mas no fundo só um louco é que se entrega a um grande amor... 

E eu já conheço os passo dessa estrada e sei que não vai dar em nada. Eu já conheço as pedras do caminho e sei também que ali, sozinha, eu vou ficar tanto pior! Mas o que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto... e que, no entanto, volta sempre a enfeitiçar? E aqui fico eu, te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou tua.


Estou cansada, tão cansada... Mas não pra dizer que não acredito mais em você. Nem pra dizer que estou indo embora. Hoje eu quero sair só, eu tenho que ir pra rua... Talvez eu volte, um dia eu volto. Eu só eu preciso esquecê-lo, minha grande, minha pequena, minha imensa obsessão. 

Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo... De repente eu me vi assim, completamente sua. Vi a minha força amarrada no seu passo, sem você não há caminho, eu nem me acho. Eu vi um grande amor gritar dentro de mim como eu sonhei um dia. Quando o meu mundo era mais mundo e todo mundo admitia uma mudança muito estranha, mais pureza, carinho, calma e alegria no meu jeito de me dar. Quando a minha voz se fez mais forte, mais sentida. A poesia fez folia em minha vida, você veio me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa. Mas não tem revolta, não. Eu só quero que você se encontre. Saudade até que é bom... É melhor que caminhar vazio. A esperança é um dom que eu tenho em mim. Não tem desespero não, você me ensinou milhões de coisas. Tenho um sonho em minhas mãos, e amanhã será um novo dia. Certamente eu vou ser mais feliz! 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

The Sound of Silence

Falta de assunto,
acontece várias vezes.
Não porque realmente não tenhamos assunto algum,
mas porque há tantos possíveis,
que nenhum parece relevante.
E mais: ficamos tão preocupados em encontrar um assunto
para preencher um silêncio em uma conversa,
que acabamos não falando nada,
ou simplesmente falando sobre o tempo,
ou sobre o último capítulo da novela das oito.

Tiago e eu vivemos sem assunto ao telefone
e, estranhamente, nossas conversas normalmente são longas.
Dia desses, algo nos levou a falar sobre a chuva,
e ele, sabiamente, lembrou-se de um verso
do meu amado Mario Quintana:

"Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o céu! Lá faz sempre bom tempo..."

De fato, dificilmente conseguimos suportar
um longo período de silêncio diante de outrem.

Em uma madrugada qualquer
eu estava vendo tv quando começou
“Everybody Loves Raymond”, na Sony.
O Ray é casado com a Debra
há sei lá quantos anos.
Em um dia dos namorados,
eles vão para um restaurante
e não têm assunto algum.
Daí, ficam horas falando sobre
o pão e a manteiga.

Chegando em casa,
Debra começa a reclamar
da falta de assunto entre eles,
afinal, eles só conversavam sobre
família ou contavam antigas histórias
que já estavam cansados de ouvir
e de contar.

Não vou contar o episódio inteiro,
que nem foi tão brilhante assim.

Vou apenas tomar emprestado
algo que achei interessante
e sobre o qual me deu vontade de escrever.
Inclusive, vou logo avisando:
O assunto agora não é mais
“falta de assunto”,
e sim, “excesso de silêncio”.

Não é sobre experiências pessoais
com o silêncio,
mas sobre experiências coletivas
com ele.

Já há algum tempo
eu venho observando como as pessoas
respondem ao silêncio
quando têm outras pessoas à volta.

O silêncio incomoda.

Muitas vezes, quando duas ou mais pessoas estão assistindo a um filme
e, de repente, em uma cena,
faz-se silêncio,
começa-se a procurar alguma coisa,
não sei o quê.

É como se apenas a imagem não bastasse,
não fosse o suficiente para preencher aquele momento.
É preciso que haja algo mais:
um diálogo, uma música,
Sei lá!  Qualquer coisa!

Por vezes é neste silêncio que começam a comentar o filme
ou falar sobre algum outro assunto que, porventura, antes houvesse escapado.

John Cage, artista contemporâneo norte-americano,
criou muitas obras experimentais com a música,
inclusive, a famosa 4’33”, em 1953.

4’33” é uma música composta inteiramente por pausas,
ou melhor, por silêncios.
Em sua primeira apresentação pública,
o pianista que ia interpretar a peça
entrou no palco em silêncio,
abriu a tampa do piano,
e ficou parado, olhando para a partitura
e acompanhando as pausas descritas.

O silêncio só era interrompido
para que o pianista virasse as páginas das partituras,
ou para que ele fechasse e abrisse novamente
a tampa do piano,
indicando o início de um novo movimento
– ainda de pausas –
da música.

A princípio, o público ficou quieto,
tentando entender o que se passava.
Após um breve tempo, iniciaram-se os cochichos,
as conversas, e as reclamações. 
Quatro minutos e trinta e três segundos
foi o tempo máximo que o público conseguiu ouvir o silêncio sem reclamar.

No meu primeiro semestre na faculdade,
tive uma matéria de História da Arte
onde estudamos arte contemporânea. 
Na sala, nunca ninguém havia ouvido
falar de John Cage ou do seu experimentalismo. 
Então, o professor passou uma fita
com a apresentação da obra 4’33”. 

A reação dos estudantes foi a mesma do público. 
Primeiro, ficaram todos calados,
apreensivos com o início da música. 
Conforme o tempo foi se passando e não se ouviu nenhuma nota do piano,
começaram a surgir ruídos, risadas, comentários e reclamações.

Depois, o professor explicou a intenção de Cage,
que não compôs uma música apenas de silêncio,
mas pelos sons ambientes dentro do teatro. 

Assim, cada vez que 4’33” é apresentada,
é uma música diferente,
composta pelos silêncios e ruídos de cada platéia.

Ainda testando sua criação, Cage ouviu-a
dentro de uma sala onde som algum penetrava. 

Mesmo assim, ele não pode ouvir o silêncio absoluto:
ouvia os ruídos de seu coração pulsando e de sua respiração.

Não é possível que haja silêncio absoluto onde tem alguém.
Muito menos onde há duas ou mais pessoas.

Ainda assim, é com medo desse silêncio absoluto
que as pessoas não se sentem confortáveis em silêncio.

Minha mãe é uma dessas pessoas.
Ela não consegue estar na presença de outra
sem falar ou ouvir algo.

Sabrina também é assim.
Só que ela chega ao extremo de dizer
qualquer primeira bobagem que passa pela cabeça
a fim de quebrar o silêncio.

Muitas vezes, quando eu estou perto
de alguém que não conheço muito bem,
sinto-me nessa obrigação de quebrar o silêncio,
para não parecer que não estou gostando da companhia
ou que a situação está desconfortável.

Engraçado.

Acho que isso acontece a muitas pessoas,
que ficam procurando assunto
por estarem em uma situação desconfortável
sem querer mostrá-la.

No tal episódio que eu vi, eles falavam também
de um silêncio ao qual eu já me referi,
alguma vez, por aqui: o silêncio reconfortante,
aquele que se dá entre duas pessoas
que se conhecem há muito tempo e se amam.

Creio que seja uma situação cada vez mais rara,
onde você consegue andar ao lado de alguém sem falar nada,
e sentir-se confortável ainda assim.

Conseguir ficar ao lado de uma pessoa,
trocando longos olhares recíprocos,
sem dizer uma só palavra,
mas, mesmo assim,
conversar através do olhar.

“O silêncio não sustenta o peso de longos olhares recíprocos, exceto nos filmes de amor, e nem mesmo nos filmes de amor porque ali, quando cessa o diálogo, o diretor sempre coloca uma música.” (Chico Buarque, Benjamim)

Chico Buarque parece não acreditar na existência disso.
Eu, tento acreditar.
Mas não sei se, de fato, o silêncio pode
sustentar “o peso de longos olhares recíprocos”...

O que sei, de fato,
é que é possível sentir-se bem na presença de outrem
sem a necessidade de um ruído sequer.
Que, só de estar na presença do outro
– que pode até estar dormindo,
ou em outro cômodo,
ou conversando com outra pessoa... –,
só de sentir a presença do outro,
parece que a vida ganha mais significado,
e que o mundo se torna um lugar mais agradável...

Enfim, não falemos mais nada.
Fiquemos todos no mais profundo e terno silêncio,
onde só podemos ouvir as nossas respirações
 e o bater dos nossos corações
– e, sinceramente, o que de mais belo e simples poderíamos escutar?

(Acho que é de 2003)

domingo, 4 de setembro de 2011

saudade

sonhei com você

era tanta saudade
que vazava pelos olhos
e voava pelos ares

seu cabelo era grisalho,
não sei se do tempo
ou mero acaso de sonho

eu te via a distância,
e sorria
e chorava
e corria
e mergulhava em seus braços

assim,
em seu abraço,
com lágrimas ainda nos olhos,
mas um sorriso nos lábios,
acordei.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Gris

Anda pela ruas como quem procura algo...
Mas o quê?
dinheiro, sexo, um amigo, uma xícara de café?
É noite, mais uma noite, depois de mais um dia
   em que nada extraordinário aconteceu.
Mas talvez não reconhecesse o extraordinário se aparecesse em sua frente com um letreiro de neon na cabeça e lhe desse um sonoro tapa na cara.

Esta noite faz frio.
Mesmo o casaco, as luvas, as meias, o cachecol,
nada é suficiente para aquecer.
Talvez nem faça tanto frio assim, não sabe,
por dentro, sente nevar   .    .            .   .
 .      .                    .          . .                     .
.                  .    .        .                     .
.         . never          . .  .
  .                      .                            .                      .
          . 
aquele Adeus foi de quem nunca mais vai voltar, pode ouvir se repetindo em sua cabeça,
e é isso, talvez nunca mais volte mesmo, embora não tenha dito nada nesse sentido, mas é assim que o fez sentir, foi assim que fez nevar.

“Tenho que ir”, ele disse.
Uma luz se apagou dentro dela, que fechou os olhos e suspirou, como se derrotada, “Adeus”.

Talvez deva parar de andar, de procurar, e voltar. O que está procurando mesmo?
Lembra da história do avozinho que procurava os óculos que estavam o tempo todo na ponta do nariz, versinho do Quintana, ah, o Quintana dela!
E então se enche de saudades, saudades futuras, na verdade, e se aquilo foi mesmo um Adeus, assim, com letra maiúscula? Adeus de nunca mais, nunca, never, neve.

O sangue congela com esse último pensamento e para de andar. Não pode ser. Nunca? Nunquinha? É tempo demais, um disparate, um desperdício.
Não sabe o que fez pra merecer aquele Adeus, mas tem que desfazer, tem que se desculpar, do que quer que tenha sido, de qualquer coisa, sei lá!
Então corre, corre como não corria desde criança, corre voltando, em desespero.
A noite já virou madrugada, quase ninguém na rua, então pode correr com todo desalinho, despreparo, destempero.
O corpo se aquece, está quase chegando, falta pouco, respira, o ar foge, para um pouco, inspira, expira, inspira, expira, e quando chegar, o que vai dizer? E se for tarde demais? Não pode ser! inspira, volta a correr, pensa que devia parar de fumar, expira, corre mais rápido, começa a chover.
Mas, espera!, o chão não está molhado, nem o cabelo, nem as roupas, só os olhos. Ótimo, não bastassem os músculos doendo, a falta de ar, agora chove e mal consegue enxergar o caminho a sua frente!

De repente, a visão turva pelas lágrimas, quer dizer, chuva, não bem o impede de enxergar, não, repara bem, é o contrário: de onde vieram a chuva, a neve, o desespero? É óbvio! Como não viu antes?

Inspira, expira, suspira. Que alívio! Chegou, não é tarde demais, toca a campainha, espera, ouve passos se aproximando, ela abre a porta, os olhos vermelhos, esteve chorando, mas por quê? O que aconteceu? O que ele fez? Não pode ser Adeus! Não se passaram dois segundos desde que abriu a porta, ela franze a testa, como quem pergunta o que ele está fazendo ali, de repente, àquela hora. E ele não fala nada, não sabe o que dizer, teve uma epifania e resolveu voltar, nunca mais quer ouvir adeus, não sabe explicar, mas é isso, é o extraordinário com um letreiro de neon na cabeça lhe dando um tapa na cara. É isso, o que procurava a vida toda. Ela sorri timidamente, ele sente a neve derreter, o peito se aquece, parece até que as estrelas brilham mais e as cores se avivam, mas isso certamente é sua imaginação.

Aquele Adeus, não foi bem o que ele fez, foi mais o que deixou de fazer.

“Você não tinha que ir?”, ela pergunta, com uma ponta de desconfiança e outra de esperança.
Ele, que finalmente recuperou o fôlego, sorri. “Achei meus óculos”.




Da Felicidade
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!
(Mario Quintana)

sábado, 23 de abril de 2011

Distração

É você minha inspiração,
meu refrão,
meu amigo.
Meu abrigo nos dias de chuva
e nos de sol, meu sorriso